Ministério financia mamona e eucalipto

MST vê contradição entre combater a cana e aprovar outra monocultura

José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

26 Janeiro 2008 | 00h00

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, ao qual o Incra é vinculado, criou linhas de financiamento para projetos agroflorestais de agricultores familiares e assentados da reforma agrária. O crédito, com juros de 2% ao ano e prazo de carência de 8 anos, está disponível também para o plantio de eucalipto - árvore combatida pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) por ser um símbolo da monocultura.Com o Pronaf Eco, a nova linha de crédito anunciada pelo ministério para a safra 2007/2008, podem ser financiadas atividades florestais usadas para a produção madeireira e não madeireira. Os assentados já dispunham do Pronaf Floresta, destinado à criação de projetos de sistemas agroflorestais e exploração extrativista ecologicamente sustentável - que também era usado para o plantio de eucalipto.O MST, que apóia o Incra no combate à cana nos assentamentos, considera uma contradição o financiamento do eucalipto, segundo o dirigente estadual Valmir Ribeiro Chaves. "A prioridade da reforma agrária deve ser a produção de alimentos", argumenta. Para ele, o avanço das monoculturas é predatório não apenas para o meio ambiente, mas para as comunidades. "Eucalipto arruína a terra e não dá emprego."Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Pronaf Eco visa justamente a fortalecer o trabalho com a biodiversidade no campo. No interior de São Paulo, os eucaliptos estão presentes sobretudo em assentamentos das regiões de Itapeva, Iaras e Pontal do Paranapanema. Em Iaras, os eucaliptais cobrem grande parte dos 2,4 mil hectares do Assentamento Zumbi dos Palmares.O assentado Francisco Domingues dos Santos plantou 2 hectares, o que representa 10% do lote. "É uma poupança. Uso uma parte da madeira e vendo o excedente", diz. Muitos lotistas plantaram áreas maiores, o que ele considera "uma loucura", pois a terra vai ficar parada seis anos, até o primeiro corte.BIODIESELO Ministério do Desenvolvimento Agrário financia também o plantio de mamona no Pontal do Paranapanema, para a produção de biodiesel. O projeto, do líder sem-terra dissidente José Rainha Júnior, também é criticado pelo MST por induzir à monocultura e ocupar áreas de produção de alimentos.Em outubro, a Federação das Associações dos Assentados e Agricultores Familiares do Oeste Paulista firmou contrato com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra para a destinação de R$ 622 mil para o preparo do solo e aquisição de sementes. Na primeira fase o projeto beneficia 1.200 assentados.De acordo com o presidente da federação, José Eduardo Gomes de Moraes, a mamona será substituída futuramente por pinhão manso, cultura que ainda depende de zoneamento ambiental. Ele garante que cada lotista vai cultivar no máximo 2 hectares - de 10% a 15% da área - para não prejudicar a produção de alimentos.

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