Minha ficha me orgulha, diz Tarso Genro

Ministro da Justiça negou a acusação de que teria interesses políticos por trás da sua posição

Carolina Ruhman, da Agência Estado,

04 de agosto de 2008 | 16h14

O ministro da Justiça, Tarso Genro, reagiu ao anúncio de que oficiais da reserva patrocinarão uma espécie de anti-seminário no Clube Militar do Rio de Janeiro, na próxima quinta, 7, no qual devem exibir uma série de slides com fotos e uma biografia resumida de ministros de Estado e petistas ilustres, em resposta à audiência pública convocada pelo ministro na semana passada para discutir a punição de "agentes do estado" que tenham praticado tortura, assassinatos e violações de direitos humanos durante o regime militar. "A minha (ficha) me orgulha", declarou Tarso, cuja ficha deverá ser a quinta a ser mostrada no evento, de acordo com reportagem do jornal O Estado de São Paulo. Veja também: Militares reagem a Tarso e criticam ''passado terrorista'' do governo Lula Os militares de reserva "têm o direito de fazer a manifestação que quiserem", disse o ministro, acrescentando que apenas levantou uma "questão jurídica". "Em nenhuma legislação, em nenhum tratado internacional, nenhuma convenção internacional, em nenhum país democrático, tortura é considerado crime político. Foi só isso que eu coloquei", afirmou Tarso, após participar do debate "O Brasil e o Estado de Direito", realizado nesta segunda-feira, 4, no auditório do Grupo Estado. O ministro da Justiça negou a acusação de que teria interesses políticos por trás da sua posição, classificando-a de "uma ligação absolutamente despropositada e falsa". "Eu considero leviana a informação que circulou em uma determinada coluna de que levantar este tema está vinculado a uma questão sucessória", disse. "Primeiro porque eu não sou candidato à Presidência da República", explicou Tarso. Segundo ele, este processo será conduzido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e afirmou que a questão "é discutida em todo o mundo, nos EUA, no Brasil, na Argentina". Reação O fato é que os militares decidiram dar o troco ao ministro da Justiça, por causa da audiência pública convocada por ele na semana passada para debater a punição de "agentes do Estado" que tenham praticado tortura, assassinatos e violações dos direitos humanos durante o regime militar. Revoltados com o que consideram "conduta revanchista" do ministro, oficiais da reserva, com o apoio de comandantes da ativa, patrocinarão uma espécie de anti-seminário no Clube Militar do Rio de Janeiro, na próxima quinta. Em recente conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, disse que é preciso "pôr uma pedra sobre este assunto", até porque o tema está saturado e o objetivo da Lei da Anistia foi encerrar um debate que "abre feridas e provoca indignação". Um general da ativa que acompanha a movimentação dos colegas reformados disse ao Estado que os militares vão se manter calados, mas avisa que a reserva se manifestar. Segundo este general, o objetivo do seminário de 7 de agosto é debater o que consideram "passado terrorista" de autoridades do governo Lula e de personalidades do PT, discutindo, inclusive, se não seria o caso de puni-los pelos excessos cometidos na luta armada. O que mais irrita oficiais das três Forças é o fato de a maioria deles ter recebido indenizações. A queixa geral é de que eles também mataram e seqüestraram e agora querem provocar os militares. No seminário, uma das idéias é aproveitar a estrutura do Clube Militar, como agremiação que desde a República Velha vem funcionando como uma espécie de porta-voz do setor, para exibir uma série de slides com fotos e uma biografia resumida de ministros de Estado e petistas ilustres. A lista começa pelo ex-ministro José Dirceu e tem o próprio Tarso Genro em quinto lugar. O segundo posto é dado à ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. O ministro da Comunicação, Franklin Martins, aparece em quarto, logo atrás do deputado José Genoino (PT-SP). Mais atrás, estão os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi. "Será que quem seqüestrou o embaixador norte-americano e o prendeu, dizendo todo dia que ia matá-lo, não cometeu ato de tortura igualmente condenável?", questionou o presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Barbosa de Figueiredo, em recente entrevista ao Estado. Ele não mencionou Franklin como um dos idealizadores do seqüestro, mas antecipou o tom do seminário. Lula "cercado" O general defende a tese de que, se for para julgar quem torturou, como sugeriu Tarso, o julgamento deve ser estendido a todos, incluindo os que estão na cúpula do governo. A lista já circula entre oficiais da ativa e da reserva por meio de mensagens pela internet. Nela, os militares se queixam de que o presidente Lula governa "cercado por remanescentes da luta armada". Um dos mais criticados é o secretário de Direitos Humanos, acusado no texto de "agir com muita liberdade e desenvoltura na defesa de posições revanchistas" no desempenho de suas funções. A mensagem conclui que a Secretaria dos Direitos Humanos "foi criada para promover o revanchismo político, afrontar as instituições militares e defender organizações de esquerda". Na biografia de Dilma, a mensagem diz que ela "participou da organização de assaltos a bancos e quartéis, foi condenada em três processos e ficou presa no presídio Tiradentes". Em tom irônico, lembra o depoimento dela ao Tortura Nunca Mais, em que ela relatou ter sido torturada por 22 dias. "Um caso raro que não se sabe por que não foi incluído até hoje no Guinness, pois conseguiu sobreviver durante 528 horas aos diferentes tipos de tortura a que alega ter sido submetida."

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