Minas exporta fé aos antigos evangelizadores

A igreja evangélica Sal da Terra, baseada em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, está empenhada em levar o Evangelho a países do Primeiro Mundo, onde acredita que a fé cristã esteja em franco declínio. O intercâmbio de missionários cresce sobretudo em relação ao Reino Unido. Lá, o fenômeno das "missões reversas", como é chamado pela imprensa inglesa, revela a existência de um terreno cada vez mais propício a pregadores estrangeiros. Os brasileiros caracterizam-se por métodos menos impositivos do que os usados pelos que chegam de outros lugares. Os ugandenses, por exemplo, não hesitam em bater de casa em casa para pregar. Já a Sal da Terra usa a música como recurso de abordagem. Um grupo de missionários do Triângulo Mineiro, cantando e dançando em ritmos brasileiros, com letras evangélicas, saúda as pessoas que se iniciam em sua doutrina em North Yorkshire. Em outro condado inglês, Lancashire, Marcos Barros promove uma comunhão coletiva em um restaurante de Bolton. Com 41 anos e dois filhos, esse ex-professor universitário paulista na área de computação mudou-se há oito anos para o Reino Unido, tornando-se líder do contingente dos missionários estrangeiros que atuam lá. Antes de chegar a Lancashire, Barros passou três anos em Edimburgo. A Escócia era um lugar especialmente favorável a esse tipo de trabalho no meio da década de 90. Havia espaço político. Fred Catherwood, presidente da Aliança Evangélica, ocupava também o cargo de vice-presidente do Parlamento Europeu. "A ordem social criada por mais de 1.200 anos de ação missionária cristã está se esfacelando", dizia Catherwood alguns anos atrás. "Mas as igrejas locais estão em condições de propiciar o apoio prático e a orientação moral necessários para reorientar vidas errantes". Conquista do Reino Naquela época, a Sal da Terra, que crescia rapidamente, soube garantir espaços no Reino Unido, ao marcar presença em um movimento maior. As "missões reversas" englobam representantes das igrejas metodista, batista e anglicana, entre outras, dentro de um sistema estratégico e cooperativo que, no mundo dos negócios, seria hoje chamado de "parceria". O coordenador dessas "missões transculturais" em Uberlândia é o pastor Flávio Guaratto, 38 anos, um dos quatro que estão à testa da principal unidade da igreja. Ele pertence a uma família tradicional da cidade, cujos amplos negócios no setor madeireiro a certa altura começaram a dar para trás. Após a falência, ele refez suas finanças com uma empresa própria, bem menor, que fabricava portais, forros, portas e rodapés. Nessa época, foi um consumidor contumaz de álcool e vários tipos de drogas. Teve rápida passagem pelo espiritismo e incursões por crenças genericamente associadas ao movimento da Nova Era. No Carnaval de 1989, após desfilar pela vitoriosa escola Imperatriz Leopoldinense no Rio de Janeiro, junto com o amigo - e agora também pastor - Olgálvaro Júnior, Flávio voltou a Uberlândia sentindo um grande vazio existencial. Foi a gota d´água. Em seguida ele converteu-se ao culto evangélico e envolveu-se com as atividades na igreja. Há três anos, publicou o livro Nações - A Igreja Cumprindo o seu Propósito, cujo tema é o trabalho missionário. Na sua base nacional, no Triângulo Mineiro, a Sal da Terra contabiliza hoje 22 congregações, 30 pastores e 2.500 membros. Tem um site oficial (www.saldaterra.org.br), no qual Guaratto assina um texto explicando os propósitos e o modo de atuação da instituição, com ênfase no intercâmbio com outros países. A Sal da Terra já tomou iniciativas de evangelização na região amazônica e junto aos índios do Mato Grosso, em colaboração com outras igrejas. E, nos mesmos moldes de atuação, buscou criar frentes em regiões ainda mais distantes do cerrado mineiro: Rússia, Azerbaijão, Turquia, Albânia, Malásia, Índia e localidades da África. Inversão de papéis O alvo mais importante continua sendo a Europa Ocidental. A Sal da Terra iniciou seu trabalho em Portugal , em 1991. Hoje, o representante da igreja, estabelecido nas imediações de Lisboa, dirige a Rádio Transmundial. Há outras famílias em Flensburg, no extremo norte da Alemanha; cinco em diferentes pontos do Reino Unido, e ainda uma outra em Hamamatsu, cidade litorânea japonesa com mais de cem mil habitantes, situada a sudoeste de Tóquio. "Ao longo da história, o Brasil foi o país do mundo que mais recebeu missionários evangélicos", afirma Flávio Guaratto. "Mas, a partir da década passada, começou uma reviravolta. Os países do Hemisfério Norte, que antes mandavam os missionários, passaram a recebê-los da América Latina, da África e da Ásia. No Reino Unido, em particular, está ocorrendo um grande despertar dos cultos evangélicos". Estima-se que, neste momento, algo como 1.500 equipes missionárias, provenientes de meia centena de países, devem estar atuando em território britânico. A maioria delas veio de regiões nas quais o cristianismo foi introduzido pelos próprios ingleses ao longo dos séculos 19 e 20. Como a fé cristã arrefeceu no centro do antigo império, nas últimas décadas o movimento expansivo deu lugar ao receptivo. No caso do Brasil, a iniciativa missionária do outro lado do Atlântico conta com o forte incentivo do arcebispo anglicano Glauco Soares de Lima, que atua aqui. Marcos Barros, um desses enviados, declarou no início deste mês ao jornal inglês The Sunday Times: "A Inglaterra tornou-se descrente. Sempre havíamos pensado neste país como sendo a terra do Bem, até que um representante da Igreja Batista nos visitou e nos falou a respeito da decadência. Viemos aqui para zelar pelos ingleses e os encontramos de portas abertas, clamando por ajuda". O jornalista de uma publicação de orientação cristã, Andy Peck, chegou até a elaborar um guia destinado à igrejas inglesas, com recomendações sobre como elas devem acolher os missionários estrangeiros e facilitar sua aclimatação. E reflete de modo original sobre o fenômeno das missões reversas: "Tendo um dia apontado o caminho a eles, chegou a nossa vez de receber ajuda. Já se foi o tempo em que nós, britânicos, servíamos de guia para os outros povos, exportando o cristianismo junto com o carvão e o críquete".

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