Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Militares recebem Comissão da Verdade, mas proíbem visita a quartel no Rio

Tenente-coronel diz ter cumprido ordem de não autorizar acesso de integrantes do colegiado ao prédio, centro de repressão na ditadura

Atualizado às 15h40, Wilson Tosta - O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2013 | 10h57

Rio - Integrantes da Comissão Estadual da Verdade do Rio que Janeiro que tentaram, na manhã desta quarta-feira, visitar o quartel onde funcionou o Destacamento de Operações e Informações (DOI) do 1º Exército durante a ditadura de 1964-1985 saíram às 11h20 da unidade sem conseguir percorrê-la. No local, hoje, fica sediado o 1.º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca, zona norte.

O comandante do 1.º BPE, tenente-coronel Luciano Correia Simões, recebeu a comissão, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que em 1977 esteve preso no DOI, e os deputados estaduais Gilberto Palmares e Robson Leite, ambos do PT, além de alguns ex-presos políticos que foram torturados no local. Embora cordial, o militar informou cumprir ordens superiores ao não permitir a visita ao local, que a comissão pretende tombar e transformar em um centro de memória dedicado às vítimas da ditadura.

O veto já fora comunicado à comissão na véspera, por meio de ofício do Comando Militar do Leste, entregue por dois coronéis. Mesmo assim, a comissão e ativistas de direitos humanos se concentraram ontem na Praça Lamartine Babo, em frente a uma entrada lateral do quartel, após as 10 horas. Pouco antes das 11 horas foram para a entrada principal, na rua Barão de Mesquita, 425, e pediram para entrar. O coronel Luciano permitiu a entrada da comissão, dos três parlamentares que a acompanhavam (deputado federal Ivan Valente, do PSOL, e deputados estaduais Robson Leite e Gilberto Palmares) e de alguns ex-presos políticos que foram torturados no local. Durante a reunião, que durou cerca de 20 minutos, o CML divulgou nota oficial, na qual alega que o Comando do Exército está vinculado ao Ministério da Defesa, órgão federal, portanto não se subordina à Lei Estadual 6335/2012, que criou a Comissão Estadual da Verdade.

"(Não deixar a Comissão Estadual da Verdade visitar o quartel) É ilegal", protestou o presidente da comissão, Wadih Damous. "Vamos insistir junto ao Ministério da Defesa e vamos convidar o ministro Celso Amorim para fazer a visita conosco." Valente informou que pretende convocar Amorim à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, para prestar esclarecimentos sobre o veto. "Fiquei preso aqui", contou o deputado federal, que foi torturado por integrar o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP). Na ocasião, outras 16 pessoas foram presas.

Durante a reunião, além de Valente, dois ex-presos políticos que passaram pelo DOI, Álvaro Caldas e Cecília Coimbra, descreveram para o tenente-coronel Luciano as torturas que sofreram no local. "Eu lamento profundamente", afirmou o oficial, segundo relato de Cecília. Nos anos 70, no DOI do Rio de Janeiro, ocorreram, além de torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos, como Rubens Paiva e Mário Alves. Ontem, as fotos de alguns deles foram expostas por ativistas de direitos humanos em varal na Praça Lamartine Babo, a poucos metros da unidade.

Durante o encontro, o presidente da comissão, Damous tentou um contato por telefone com o comandante Militar do Leste, general Francisco Carlos Modesto, para reivindicar que a comissão visite o quartel. Do CML, informaram que o militar não estava, mas, algum tempo depois, o general retornou a ligação. Ficou acertado um encontro para esta tarde, no Palácio Duque de Caxias, para discutir o assunto.

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