Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Militares priorizam questão profissional

Golpe de 1964 e ditadura parecem distantes para futuros comandantes, que se interessam pelas hipóteses de ameaça externa e pelos meios de que disporão para enfrentá-las

Roberto Godoy - O Estado de S.Paulo,

28 de março de 2014 | 16h27

O general de 2047 tem 20 anos e sabe onde pretende estar na segunda metade do século - ele se vê na Amazônia, o cenário do que considera "inevitável área de tensão regional", no futuro próximo. No litoral do Rio, um futuro almirante hoje com 19 anos também contempla o seu destino, a bordo de um submarino de ataque, envolvido na "defesa dos interesses brasileiros no Atlântico Sul" - petróleo, linhas comerciais, gás e minérios. No ar, estará um coronel-aviador de 2o anos, realizando missões de patrulha armada sobre as zonas estratégicas do País, com o caça que, espera o ainda aluno de academia, será resultado de um projeto nacional.

Os três representantes da primeira geração de oficiais superiores das Forças Armadas formados em ambientes essencialmente tecnológicos, alunos de escolas militares e comandantes dentro de 30 anos, tratam do golpe de 64 por meio da lente da história.

Um deles, o da Marinha, tem o pensamento mais politizado. Acha que "talvez" tenha havido uma espécie de contragolpe, ante a ameaça de movimento revolucionário, "jamais claramente caracterizado por pesquisadores". O aluno do Exército "estudou os acontecimentos" na escola preparatória, o mesmo canal seguido pelo futuro piloto de combate. Todos têm a mesma convicção, a de que, meio século depois, a atual comunidade militar pouco tem a ver com os fatos, e prioriza as questões profissionais.

As Forças Armadas somam cerca de 318 mil homens e mulheres. O maior efetivo é o do Exército - 190 mil soldados, 30% de pós adolescentes, cumprindo um ano de serviço obrigatório. O acesso à carreira de combatente é feito, a rigor, por meio da Escola Preparatória de Cadetes, que mantém 500 alunos. A fase seguinte, quatro anos na Academia Militar das Agulhas Negras, fornece os aspirantes aos quadros de oficiais - são 1.850 cadetes este ano, entre os quais diversos estrangeiros. Ao longo da carreira, passarão por cursos de especialização. Os capitães cumprem o ciclo de Aperfeiçoamento e, ao atingir a oficialidade superior, são aceitos nos programas de Comando e Estado-Maior; Política e Estratégia; e de Alta Administração. Há uma intensa preocupação com a profissionalização militar desde a reforma feita pelo primeiro presidente do ciclo de exceção, marechal Humberto Castelo Branco, impondo a reforma compulsória após 12 anos de generalato. Na caracterização formal do ofício, há um item que afirma: "O militar da ativa é proibido de filiar-se a partidos e de participar de atividades políticas, especialmente as de cunho político-partidário".

Nesse meio rarefeito, poderia haver uma nova intervenção como a de 1964? "Sinceramente, não acredito", diz o cientista político Alexandre Fuccille, professor da Unesp e integrante do Grupo de Estudos de Defesa da instituição. Para o pesquisador, "não só o momento histórico é distinto, como o Brasil é um país mais complexo, dinâmico e plural". Fuccille reconhece "estarem pendentes na agenda política a concretização de reformas estruturais muito parecidas com as ‘reformas de base’ que eram discutidas há 50 anos".

Para um professor e militar que prefere não ser identificado, "resta uma dúvida clara em relação à destinação constitucional das Forças Armadas: a caracterização de uma eventual ameaça". O Artigo 142 da Constituição fala em "defesa da pátria, garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem". Ele pergunta: "Essa condição pode ser interna? Quem a identifica?"

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