Militares e Jobim tentam abafar crise

Em cerimônia, ministro e comandantes mostraram descontração; problema é ?página virada?, afirmam

Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2008 | 00h00

A divulgação de que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçou demitir o comandante do Exército, Enzo Peri, e os generais que o apoiassem num ato de contestação de sua autoridade, causou desconforto entre militares que participaram da cerimônia de 7 de Setembro, em Brasília. Mas para evitar escalada da crise, os militares não quiseram comentar o episódio. Os dois lados preferiram encerrar a fase de discussão desencadeada pela decisão do Planalto de transformar em ato de governo a cerimônia de lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade (que conta, na versão dos militantes, a história da luta contra a ditadura no Brasil). Ontem, tanto Jobim quanto o general Enzo evitaram dar declarações. A interlocutores, porém, os dois disseram que o assunto estava encerrado e já podia ser considerado "página virada". Quando Jobim chegou ao palanque, os comandantes das três Forças já estavam lá. O ministro se dirigiu a Enzo e brincou com ele, fazendo alusão aos rumores de que estava querendo cortar sua cabeça. O general respondeu, também brincando, demonstrando que estava tudo bem e que não havia novos problemas. A cena foi assistida por autoridades civis e militares que já estavam no palanque e foi entendida como sinal de que dali não surgiria nenhuma nova crise militar e que o problema, ao menos por enquanto, estava superado. DESCONTRAÇÃOPouco antes do fim da cerimônia, Jobim fez questão de dar demonstração pública de que o relacionamento com as Forças é o melhor possível. Saiu de seu lugar, em uma extremidade da fileira de cadeiras, e se dirigiu à outra ponta, onde se encontravam o general Enzo e os comandantes da Marinha, Moura Neto, e da Aeronáutica, Juniti Saito. Ali, ficou por mais de 15 minutos, conversando descontraidamente.O posicionamento dos comandantes na primeira fila do palanque foi alterado para a extremidade pelo cerimonial do Planalto, com a justificativa de que primeiro as tropas apresentavam continência ao presidente da República e, só depois, aos comandantes. Um ministro resumiu o episódio, ao relatar a cena que assistiu do encontro inicial com troca de brincadeiras entre Jobim e o general Enzo: "Cada um fez a sua birra e, ao final da história, os dois resolveram encerrar o episódio, para tranqüilidade da Nação." O chefe do Estado Maior do Exército, general Luiz Edmundo Maia Carvalho - que ocupava interinamente o Comando da Força Terrestre quando o livro foi lançado -, não foi à cerimônia ontem, em razão de viagem oficial. Foi ele quem procurou Jobim para lhe dizer que os militares estavam insatisfeitos.Apesar do estilo truculento de Jobim, que reitera sempre que pode sua autoridade, os militares entendem que ele tem força política para defender os interesses das três Forças, que passam por reaparelhamento, fortalecimento da indústria de defesa e melhorias salariais.

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