Militar que combateu no Araguaia diz que 'a ordem era matar'

José Vargas confessou ter torturado e deu detalhes do tratamento dispensado àqueles que morriam

Agência Brasil

05 de dezembro de 2008 | 20h56

"A ordem era matar e perguntar depois", disse o ex-chefe do grupo de combatentes do Exército na Guerrilha do Araguaia , José Vargas Jimenez, em depoimento, na quarta-feira na Comissão sobre Anistia na Câmara dos Deputados. Na época da guerrilha, Chico Dólar, apelido pelo qual era conhecido, era terceiro-sargento do Exército.   Veja Também: Militar admite em depoimento torturas no Araguaia Direito à verdade: Livro conta história oficial   Especial traz a cronologia dos fatos de 1968    Ele confessouter torturado várias pessoas e deu detalhes do tratamento dispensado àqueles que não resistiam e morriam.   "Como não podíamos carregar os mortos pela selva, a gente deixava pelo caminho. A única precaução era cortar a cabeça e as duas mãos para impossibilitar a identificação da vítima", relatou.   O depoimento de Jimenez provocou reação em familiares de vítimas da ditadura militar, que acompanharam a reunião. Alguns chegaram a interromper o depoimento chamando o ex-militar de torturador e se indignaram no momento em que ele disse acreditar que tem direito de receber uma indenização do Estado devido aos serviços prestados durante a guerrilha.   "Eu sou um herói do Araguaia. Eu acho que mereço uma indenização. Trabalhei lá por seis anos", disse o militar que atualmente está na reserva. "Foi uma guerra. Guerra é guerra e afeta todo mundo. Sei que tem gente sofrendo. Do nosso lado (Exército) também tem gente sofrendo", justificou.   Para o deputado Fernando Ferro (PT-PE), o depoimento de Jimenez trouxe informações importantes que poderão ser cruzados com dados que a comissão já reuniu.   "Ele trouxe um número de mortos que é bem maior do que nós tínhamos informações. Além disso, pela primeira vez, ele reconheceu que torturou e que, além de militantes, houve também camponeses mortos", destacou o deputado.   Jimenez chegou a citar nomes de pessoas, cuja morte ele disse ter presenciado no Araguaia, ressalvando que saiu da guerrilha muito antes dela terminar e por isso não tinha condições de saber se algumas pessoas tidas hoje como desaparecidas realmente foram mortas.   Entre os nomes citados por Jimenez estão o Piauí (Antônio de Pádua), até hoje dado com desaparecido, Zezinho, que seria um camponês assassinado em meio a guerrilha, e outras pessoas conhecidas pelos pseudônimos de Alfredão, Nunes e Sônia.   O ex-militar ainda deu uma outra versão para a morte do líder Oswaldão, que após ser morto, teve o corpo arrastado por um helicóptero do Exército por toda região do Araguaia.   "Ele caiu do helicóptero e ficou preso pela corda. Aí resolveram (os militares) arrastá-lo para mostrar para todos que ele havia sido morto.   Em seu depoimento, Jimenez chegou a citar integrantes do governo como pessoas que lutaram contra a ditadura militar e que estavam na lista de pessoas procuradas pelo Exército.   "Muitos do que estão aí hoje no poder eram combatentes. "A ministra Dilma [Dilma Rousseff, da Casa Civil], Tarso Genro (Justiça) e o Minc (Carlos, ministro do Meio Ambiente) eram todos procurados", destacou.   Outro nome citado por Jimenez em seu depoimento foi o do coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o Sebastião Curió, que era responsável pelo trabalho de inteligência militar no combate à guerrilha. Ele utilizava as informações obtidas de guerrilheiros capturados por meio de tortura.   Curió foi para o sul da Amazônia para combater nas décadas de 1960 e 1970, e nunca mais retornou, virando liderança política na região. Ele chegou a fundar a cidade de Curionópolis, no sul do Pará, da qual foi prefeito.

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