Militar pode ter sido morto por policial durante investigação do caso Rubens Paiva

Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e quatro de prisão contra suspeitos de terem assassinado Júlio Miguel Molinas Dias

Lucas Azevedo, O Estado S. Paulo

18 de dezembro de 2012 | 15h33

PORTO ALEGRE - A polícia do Rio Grande do Sul acredita que resolveu o mistério a cerca da morte de um coronel do Exército da reserva que desencadeou a descoberta de documentos sobre o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, em 1971. Na manhã desta terça-feira, 18, agentes da Polícia Civil e oficiais da Brigada Militar cumpriram 14 mandados de busca e quatro de prisão contra suspeitos de terem assassinado Júlio Miguel Molinas Dias, 78 anos, no dia 1º de novembro, quando ele chegava em casa, em Porto Alegre.

São dois policiais militares, a namorada de um deles e um cunhado, envolvidos com assaltos e tráfico de drogas. Segundo as investigações, eles teriam rendido Molinas com o intuito de invadir sua casa e roubar o arsenal que ele mantinha: uma coleção de armas dos mais variados calibres. Durante as investigações, foram encontrados na casa do coronel, no bairro Chácara das Pedras, na zona norte de Porto Alegre, importantes documentos relativos à ditadura militar. Molinas foi chefe do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) do Rio de Janeiro, no início da década de 1980.

A quadrilha presa nesta terça-feira vinha sendo investigada pela 9ª Delegacia de Polícia por suspeita de assaltos. Ao mesmo tempo, a Corregedoria da Brigada apertava o cerco aos dois soldados, lotados no 11º Batalhão, responsável pelo policiamento do bairro em que Dias morava. A polícia chegou até os suspeitos após obter fragmentos de impressões digitais deixadas no veículo utilizado para render o coronel. As investigações apuraram ainda que, depois de assassinar Dias em frente de casa - ele teria reagido ao assalto -, os soldados fugiram e abandonaram o veículo em uma rua próxima. Dali, rumaram para o batalhão em que trabalham a pé.

Em suas casas foram apreendidas armas, toucas ninjas e roupas que ligam a dupla ao assalto a uma farmácia em que eles foram flagrados por câmeras de monitoramento. Além disso, no batalhão em que estão lotados foram encontradas 20 pedras de crack.

Arquivos históricos. No arquivo que Dias mantinha em casa, chamou a atenção da polícia um ofício datado de 20 de janeiro de 1971 - data da morte de Rubens Paiva -, que contém uma relação de objetos pessoais que estavam com o deputado no momento de seu desaparecimento, como um chaveiro, documentos de identificação, dinheiro, relógio e roupas que ele vestia. O relatório identifica ainda que o deputado chegou ao DOI-Codi naquele dia trazido por uma equipe do Centro de Inteligência da Aeronáutica (CISAer).

O documento contraria a versão dada pelo Exército até então, de que o deputado havia sido sequestrado quando estava a caminho do órgão repressor. Depois que sua residência foi invadida por homens se dizendo da Aeronáutica e que ordenavam que ele os acompanhassem para averiguação, foi concordado que Paiva fosse junto dirigindo seu próprio carro. O veículo, segundo testemunhas da época, foi visto dentro das dependências dos órgãos de segurança - o que na ocasião questionava a tese do sequestro.

Também foi encontrado na residência de Dias uma espécie de relatório escrito de próprio punho, no qual o coronel relata minuto a minuto a repercussão no dia do atentado ao Riocentro, ocorrido em 30 de abril de 1981, como a hora em que foi avisado do incidente, o momento que a imprensa tomou conhecimento, entre outros dados. Ambos os documentos foram entregues para análise da Comissão Nacional da Verdade, em 27 de novembro.

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