Militância pede, mas Lula e Dilma evitam mensalão

Governo queria impedir desagravo a condenados na abertura de congresso da sigla, mas petistas cobram apoio a ex-dirigentes presos

Vera Rosa e Tânia Monteiro , O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2013 | 21h37

Brasília - Fracassou a tentativa do governo de impedir manifestações de desagravo aos condenados no processo do mensalão na abertura do 5.º Congresso do PT, na noite desta quinta-feira, 12, em Brasília. A presidente Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, porém, não fizeram a defesa pública dos petistas presos.

"Lula, guerreiro, defenda os companheiros", gritaram militantes da plateia, antes mesmo do discurso do ex-presidente. "Eu não falarei da Ação Penal 470 enquanto não terminar o último julgamento", respondeu, sem mencionar o termo "mensalão". Com microfone em punho, Lula preferiu criticar a imprensa, a oposição, pregar a ampliação das alianças políticas e pedir votos para Dilma.

No auditório, petistas passavam de um lado para outro com uma faixa enorme, reivindicando a "Anulação da Ação Penal 470", mas nem Lula nem Dilma manifestaram solidariedade ao ex-ministro José Dirceu, ao ex-presidente do PT José Genoino e ao ex-tesoureiro Delúbio Soares, presos há 28 dias.

"A verdade é que nós pagamos pelo nosso sucesso", afirmou Lula, que prometeu estar à disposição da campanha à reeleição de Dilma a partir de março. "Se Lula e Dilma incomodam muita gente, Lula, Dilma e os aliados incomodam muito mais", disse o ex-presidente, ao defender a ampliação das parcerias.

Recepcionada aos gritos de "1,2,3 é Dilma outra vez", a presidente foi na mesma linha e disse que o PT tem "couro duro" nas dificuldades. "Poucos governos e poucos partidos fizeram tanto pela transparência e o combate à corrupção como o PT. Mais ética e mais democracia é um clamor do PT, é algo que o PT sempre defendeu. É isso que nos distingue e faz a diferença: nós temos lado, temos posição e sabemos que a vida é dura", disse Dilma.

Helicóptero. A única referência feita por Lula aos condenados do mensalão foi quando ele citou a cocaína encontrada na aeronave do deputado mineiro Gustavo Perrella (SDD). "Se for comparar o emprego do Zé Dirceu no hotel com a quantidade de cocaína no helicóptero, a gente percebe que houve desproporção na divulgação do assunto", disse o ex-presidente, numa alusão à frustrada tentativa de Dirceu de ser gerente do Hotel Saint Peter, em Brasília, com um salário de R$ 20 mil.

Dilma não queria manifestações contra o julgamento do Supremo Tribunal Federal na abertura do congresso petista, mas foi avisada por dirigentes do partido, antes da cerimônia, de que não era possível controlar a plateia. Coube ao presidente do PT, deputado estadual Rui Falcão, fazer o desagravo aos condenados.

"Ninguém pode ser arvorar no direito de nos dar lição de ética", exclamou ele, que definiu o processo como um "tsunami de manipulação". "Repito, sem titubear: nenhum companheiro condenado comprou votos no Congresso Nacional, não usou dinheiro público, nem enriqueceu pessoalmente", disse Falcão, que defendeu a regulamentação da mídia e partiu para a ofensiva contra o PSDB. "Por que o silêncio de mais de uma década, no martelo dos juízes, no famoso mensalão do PSDB mineiro? Por que o tratamento diferenciado de certos setores da grande imprensa em relação ao 'tensalão' do governo tucano de São Paulo?"

Lula disse que a oposição e as elites atacam os governos petistas por causa da legenda. Dirigindo-se ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, soltou um palavrão. "Pensei que iam tratar o Fernando Haddad, puta merda, com carinho. Ledo engano". A plateia gritava "Lindo". O ex-presidente respondeu: "Ninguém quer saber se ele é lindo. O problema é uma coisinha chamada PT".

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