Mídia tenta impugnar resultado de 2006

Presidente exagera ao reclamar das vaias?

José Álvaro Moisés *, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

Há pelo menos três significados para as reações do presidente Lula e do PT aos acontecimentos das últimas semanas. Primeiro, elas revelam uma concepção de democracia pouco abonadora para eles. Classificar protestos e vaias como terceiro turno é uma idéia essencialmente antidemocrática. A Constituição prevê eleições em dois turnos quando a disputa não se resolve no primeiro, mas garante aos cidadãos o direito de se opor ao governo, quando há motivos para isso, através de partidos, ações na Justiça, pressão direta e protestos. Classificar isso como terceiro turno revela incapacidade de conviver com quem pensa diferente.Segundo, interpretar como orquestração vaias e movimentos de cansaço em face de claros sinais de desgoverno - apagão aéreo, insegurança pública e dificuldades para bem aproveitar a bonança econômica internacional - é indicador, ao mesmo tempo, de surpresa e de arrogância em face do sentimento real de setores da população com o que ocorre no País. O governo e os dirigentes do PT parecem ter tanta certeza de que tudo o que fazem está correto que não cogitam perguntar-se sobre os verdadeiros motivos do descontentamento. Cegos pela arrogância política, ao invés de procurar entender a frustração de expectativas de parte dos eleitores, limitam-se a classificar manifestações legítimas como orquestração, sem perguntar por que tanta gente aceita isso.Terceiro, Lula parece inclinar-se - no limite - pelo modelo chavista de enfrentar opositores, menosprezando o perigo implícito de dividir o País ao meio. Embora lembre, com razão, que não se deve ''''brincar com a democracia'''', porque não sabemos o que vem depois dela, revela que não hesitaria em levar as divergências para ''''as ruas'''', se entender necessário, desconsiderando que isso fere a lógica e o processo institucional democráticos de dirimir conflitos políticos. Os riscos para a democracia e para uma realidade que, cada vez mais, envolverá a presença de cidadãos críticos são evidentes.*Professor Titular de Ciência Política da USP e Diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas

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