Micros vão parar em açougue

Equipamentos atenderiam 320 moradores de Itaí (SP)

, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

No dia 24 de abril, uma solenidade marcou a inauguração do telecentro da Vila Santa Terezinha, bairro rural de Itaí, interior de São Paulo. Dez computadores e uma impressora foram doados por Furnas Centrais Elétricas S/A, controlada pelo Ministério de Minas e Energia.

O objetivo seria a inclusão digital dos 320 moradores beneficiados com a chegada da energia elétrica. O telecentro foi instalado na única escola do bairro. Funcionou menos de uma semana. Desde então os equipamentos, recolhidos pela prefeitura, estão na câmara frigorífica de um açougue desativado.

A prefeitura alega que os micros foram ligados sem o sistema de conexão via satélite à banda larga. "Ficaram de trazer a antena e não apareceram mais", conta o assessor de gabinete Felipe Cândido. "Computador sem internet é o mesmo que nada." Os alunos da escolinha, como a pequena Maria Clara, de 4 anos, usam as mesas dos computadores para brincar.

O assessor da prefeitura alegou que o telecentro veio "de brinde" no pacote do Luz para Todos. "Não teve negociação prévia, por isso foi instalado no único local disponível", disse.

Em Murutinga do Sul, a 616 km de São Paulo, 11 computadores doados pelo Ministério das Comunicações também estão parados porque ninguém sabe operar. De acordo com Valter Canalli, responsável pela área de informática da prefeitura, as máquinas foram entregues no ano passado. "Em janeiro, o pessoal veio e instalou, mas como os micros operam pelo sistema Linux, que ninguém conhece, indicamos dois funcionários para receber um treinamento." Até agora o treinamento não foi dado. Sem lugar adequado para instalar o telecentro, as máquinas foram parar no salão nobre de uma escola municipal.

Em Guzolândia, a 590 km da capital, 12 computadores chegaram em meados de 2008, mas as máquinas só foram instaladas em janeiro. "Está tudo pronto, mas falta o pessoal do ministério pôr em funcionamento", diz o diretor administrativo da prefeitura, Osmar Zacarias Duarte. O problema é que a empresa que instalou não deixou nenhum contato. "Não temos nem um telefone para falar com eles." O prefeito Mário Luiz Cardoso (PT) não permitiu que fossem feitas fotos do local - os computadores estão numa sala com lixo e caixas vazias.

A prefeitura de Icém, a 503 km de São Paulo, recusou um kit do Acessa São Paulo, oferecido pelo governo estadual, porque a cidade já havia recebido 12 computadores do governo federal para um telecentro. "Achamos que haveria duplicidade", disse o chefe de gabinete Moacir José Mellote. Ali também ninguém sabe operar o Linux. "Indicamos duas pessoas com conhecimento em informática, mas elas estão esperando." As máquinas estão num centro de inclusão com as portas trancadas.

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