Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

‘Meus equipamentos seriam desligados’, diz ex-paciente da Prevent Senior à CPI da Covid

Advogado relata que recebeu da Prevent Senior ‘kit covid’ e que família ameaçou ir à Justiça para mantê-lo em unidade intensiva

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 22h11

Em um depoimento emocionado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta quarta-feira, 9, o advogado Tadeu Frederico de Andrade, de 65 anos, relatou a senadores seu drama ao ser internado em um hospital da Prevent Senior após pegar covid-19, no ano passado. Ele disse que médicos da operadora tentaram retirá-lo da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para “morrer em poucos dias”, após usarem o chamado “kit covid”, composto por medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus. Ao contar a sua história, ele chorou.

A CPI da Covid investiga a Prevent Senior por supostamente fazer “experimentos” em pacientes para testar substâncias que não têm indicação para casos de covid-19, como a hidroxicloroquina, em alinhamento com o que defende o presidente Jair Bolsonaro.

O advogado afirmou que, por orientação de médicos da Prevent, recebeu o “kit covid” ainda em casa, logo após ligar para o plano e relatar os primeiros sintomas da doença. Depois de cinco dias de tratamento, teve uma piora no quadro, quando foi internado. Ele disse que permaneceu durante 30 dias na UTI e afirmou ter sido vítima de uma tentativa de retirada dos cuidados intensivos sem o consentimento da família.

Por telefone, de acordo com Andrade, uma médica da Prevent informou à filha do paciente que ele seria retirado da UTI e iria para um leito paliativo, com aplicação de morfina e determinação para não reanimação em caso de parada cardíaca. A decisão foi repetida em uma reunião presencial usando o prontuário de uma outra paciente, de acordo com Andrade. “Seria ministrada uma bomba de morfina e todos os meus equipamentos de sobrevivência, na UTI, seriam desligados.”

A família foi contra a decisão dos médicos e ameaçou recorrer à Justiça. “Minha família não concorda nessa reunião com o início dos cuidados paliativos, se insurge, ameaça ir à Justiça buscar uma liminar para impedir que eu saia da UTI e ameaça procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recua e cancela o início do tratamento paliativo, ou seja, eu, em poucos dias, estaria vindo a óbito e hoje estou aqui”, relatou o advogado, que chorou ao mencionar o episódio aos senadores.

Médico. Também na sessão da CPI desta quarta-feira, o médico Walter Correa de Souza Neto falou em “fraudes”, incentivo ao chamado “tratamento precoce” e falta de autonomia dos profissionais de saúde na Prevent. Ele foi um dos profissionais que entregaram um dossiê à CPI com acusações à rede. “A gente vivia num ambiente em que todas as pessoas ficavam muito receosas de contrariar qualquer orientação”, afirmou.

O médico declarou ter sido pressionado a prescrever hidroxicloroquina. “Eu não fazia isso fora da Prevent, mas, na Prevent, eu chegava a fazer e avisava sempre os pacientes de que não havia evidência. Essa coisa que foi citada de que os pacientes ‘ninguém vai a óbito, ninguém entuba’, isso já era muito claro, a gente sabia que era fraude.”

Operadora. Em nota, a Prevent Senior negou que tenha iniciado tratamento paliativo em Andrade e afirmou que a medida foi uma sugestão da médica da empresa, e não uma determinação. A empresa afirmou que o Souza Neto mentiu no depoimento e tentou fechar “acordos milionários” para que a advogada Bruna Morato, que também foi ouvida na comissão, não levasse as acusações à CPI.

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