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Dora Kramer
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Mestre-sala do mar

Faz mais de 20 anos que Carlos Castello Branco nos deixou, no dia 20 de maio de 1993. Lá se vão duas gerações que não tiveram a chance de contar com a orientação da bússola diária quase sempre infalível de Castelinho, o maior cronista político do Brasil que por mais que tenha visto ao longo de cinco décadas completas - incluídas aí duas ditaduras - nunca viu nada parecido com o atual desconserto que assola o País.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h02

E por que uma afirmação assim tão definitiva? Porque assim autoriza a leitura da vida e da obra de Castello fartamente documentadas, detalhadamente descritas e de uma forma invejável escrita pelo jornalista Carlos Marchi no livro Todo aquele imenso mar de liberdade, a ser lançado em março de 2015 pela editora Record.

O livro acompanha Castelinho desde o Piauí, onde nasceu e começou a carreira em 1939, passando por Belo Horizonte, onde viveu o apogeu e a desistência do sonho de se tornar um romancista, Rio de Janeiro, onde estrearia de fato no ofício de comentarista político até a chegada em Brasília.

Na capital, um desvio: seria secretário de imprensa de Jânio Quadros e nessa condição acompanharia "de dentro" passo a passo os acontecimentos que levaram à renúncia. Foi a única vez em que Castello ocupou um cargo em governo. E não gostou do que viu. Estava certo quando relutou em aceitar e, segundo ele mesmo, errado em ceder à imposição do então presidente. Jânio lhe assegurou que a permanência seria curta. O que viria, no entanto, de tão inusitado nem suas afiadas antenas foram capazes de prever.

Em Todo aquele imenso mar... Marchi conta os episódios da História do Brasil sob o olhar e a tradução de Castelinho. São inúmeros. Alguns eletrizantes, para quem não viveu aqueles dias ou não tem o hábito de cultivar intimidade com o passado. Aos jovens que talvez nunca tenham ouvido falar nele ou não saibam avaliar sua importância, abre as portas do acesso ao desconhecido. Aos mais velhos, as janelas da memória. Um relato que pelo misto de franqueza e sutileza pode provocar todo tipo de reação, menos tédio e indiferença.

Entre outros motivos porque o autor não esconde nada, nem mesmo passagens que possam soar constrangedoras ao biografado. Definitivamente não se trata de obra de mera galanteria. São 437 páginas das quais não se joga fora um detalhe.

São todos indispensáveis para a composição da personalidade, dos métodos de trabalho, das convicções e da alma do personagem cujo talento na captação dos fatos, no alinhavar das aparentes coincidências, na insistência em defender a liberdade em tempos escuros e na independência de um ser ao mesmo tempo recluso e sociável, fez dele o canal por meio do qual iam sendo, diariamente, desvendadas as entranhas do poder no Brasil.

Durante 30 anos nas páginas do Jornal do Brasil e por duas vezes sob duas ditaduras: de Getúlio Vargas e dos militares. Não por acaso, Castelinho ficou conhecido pela habilidade de falar nas entrelinhas. O livro nos conta como fazia isso em seu ofício do dia a dia, arrancando - e mais difícil, transmitindo ao público - informações de um regime ao qual só interessava escondê-las. Tanto é que censurava a imprensa.

A "Coluna do Castello", contudo, nunca foi alterada pelos censores que sentavam praça nas redações. Ele foi preso duas ou três vezes, a coluna chegou a ter sua publicação suspensa, mas o texto nunca foi mexido. Tudo tão bem alinhavado, as palavras cirurgicamente escolhidas e os detalhes cuidadosamente bordados, que não havia espaço para a tesoura do alheio.

Não obstante o encantamento das entrelinhas, o maior benefício do livro é que Carlos Castello Branco por meio de Carlos Marchi fala às claras a respeito de tudo o que viu e ouviu, a tempo de assistir a todo esse imenso mar de liberdade tomar conta do Brasil.

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