Valter Campanato|Agência Brasil
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Mesmo afastado, Cunha continua personagem central do impeachment

Nesta terça-feira, 30, o jurista Miguel Reale Jr. usou a tribuna do Senado para rebater a tese de que o peemedebista agiu por vingança ao aceitar o pedido de afastamento de Dilma

Isadora Peron, Igor Gadelha, Rachel Gamarski e Fábio Fabrini, O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2016 | 00h51

Brasília - Mesmo afastado do mandato de deputado federal, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) continua um personagem central no processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Nesta terça-feira, 30, o jurista Miguel Reale Jr. usou a tribuna do Senado para rebater a tese de que o peemedebista agiu por vingança ao aceitar o pedido de impeachment.

Em seu depoimento na véspera, a petista voltou a afirmar que Cunha deflagrou o processo, em dezembro do ano passado, porque ela não aceitou colocar um freio nas investigações da Operação Lava Jato e porque o PT não quis votar contra prosseguimento do pedido de cassação do peemedebista.

"Eu saí chocado do discurso da presidente Dilma. A impressão que tive é de que a presidente está de costas para a Nação. Ela atribuiu este processo a uma trama urdida por Eduardo Cunha, sem se aperceber que este processo nasceu das ruas", disse Reale Jr.

O jurista é um dos autores do pedido de impeachment e dividiu com a advogada Janaína Paschoal o último período que a acusação teve ontem para expor os seus argumentos pró-afastamento. O terceiro autor, o ex-petista Hélio Bicudo, não compareceu à sessão por questões de saúde.

O ex-ministro José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma no processo, também voltou ao tema em seu discurso na tribuna do Senado. Ele lembrou que a petista não apoiou a eleição de Cunha para a presidência da Câmara e acusou o peemedebista de trabalhar para desestabilizar o governo. Segundo ele, o peemedebista enviou diversos recados ao Palácio do Planalto.

“Um dos recados era: "Parem com a Lava Jato. Demita o seu ministro da Justiça e o seu diretor-geral da Polícia Federal, porque, senão, esse governo será desestabilizado”, disse.

O “ultimato” dado por Cunha, segundo Cardozo, teria sido: "Se não houver votos do PT para arquivarem o meu processo, eu abro o impeachment”.

A própria Dilma, ao comparecer pessoalmente ao Senado, citou Cunha, o que levou o ex-presidente da Câmara a divulgar uma nota anteontem dizendo que a presidente afastada "segue mentindo contumazmente". Cunha afirmou ainda que Dilma "esquece" que a acusação de que houve desvio de poder na abertura do processo já foi decidida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que "reafirmou a lisura" de seu ato.

Acordos. Em seus discursos, diversos senadores aliados de Dilma também culparam Cunha pelo impeachment da petista. O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), rebateu essas afirmações. Para o tucano, o governo da petista fechou acordos com o então presidente da Casa quando lhe foi conveniente.

Ele insinuou, por exemplo, que a parte que fazia referência à Lava Jato foi retirada do pedido de impeachment pelo peemedebista não só porque o peemedebista era alvo das investigações, mas porque costurou-se um acordo para favorecer Dilma.

Cunha, que já é réu em dois inquéritos por conta do esquema de corrupção da Petrobrás, foi o responsável por abrir o processo de impeachment contra Dilma em dezembro do ano passado. Ele ainda presidia a Câmara quando o processo foi aprovado pelos deputados, em abril. No início de maio, o Supremo Tribunal Federal decidiu afastá-lo do cargo. O processo que pede a cassação definitiva do seu mandato está na pauta da Câmara para ser votado no dia 12 de setembro. 

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