Mercado brasileiro de games cresce e vira oportunidade de negócios

País pode virar 'celeiro' de criadores de jogos, mas setor diz enfrentar entraves, como pirataria e alta carga tributária.

Luís Guilherme Barrucho, BBC

15 de outubro de 2012 | 05h00

Viciados em jogos eletrônicos, o paulistano Arthur Curiati, de 24 anos, e o paraibano Raiff Chaves, de 23 anos, conheceram-se virtualmente, enquanto competiam com outros jogadores - não raro, durante mais de oito horas por dia.

Em abril do ano passado, os dois decidiram passar para o mesmo lado e fundaram a paiN-Gaming, uma empresa dedicada a agenciar novos talentos do mundo dos games de olho nos prêmios distribuídos nos principais torneios do setor realizados tanto fisicamente, em grandes feiras, como virtualmente, pela Internet.

Nos Estados Unidos, onde o mercado já é mais profissionalizado, tais competições podem atingir cifras milionárias.

"Há torneios em que o vencedor pode levar para casa de US$ 2 milhões a 3 milhões de dólares (R$ 4 milhões a 6 milhões)", explicou Curiati.

Por enquanto, com a empresa ainda em fase de maturação, os dois jovens investem tudo o que ganham.

Eles aproveitam o dinheiro obtido com patrocínios tanto para recrutar jogadores em ascensão, quanto para investir em equipamentos de última geração e, assim, garantir a continuidade das vitórias - e dos prêmios.

"Comecei a ver o crescimento desses jogos eletrônicos. Com isso, fui vendo também algumas pessoas tentando profissionalizar o esporte eletrônico e criei uma paixão por aquilo", afirmou Chaves.

Na última sexta-feira, os dois trouxeram parte de sua equipe - composta por 30 jogadores dos mais diversos estados brasileiros - a São Paulo para a Brasil Game Show, que reuniu grandes fabricantes do setor e um público estimado de 80 mil pessoas ao longo de quatro dias de evento.

O objetivo era tentar abocanhar parte dos US$ 80 mil em premiações que seriam distribuídas em um torneio que acontecia ali.

Classe média

A grandiosidade da feira, que começou no Rio de Janeiro em 2008 com 3 mil pessoas, é uma pequena amostra da evolução do mercado brasileiro de games nos últimos anos, que acompanhou o crescimento da classe média do país.

Segundo um levantamento da consultoria americana PricewaterhouseCoopers (PwC), o setor faturou no ano passado só no Brasil R$ 840 milhões e pode atingir R$ 4 bilhões em 2016, crescendo em média 7,1% por ano.

Hoje, um em cada cinco brasileiros, ou 45,2 milhões de pessoas, de acordo com o Ibope, são jogadores assíduos ou eventuais.

"Comparado com os Estados Unidos e até com o próprio México, o mercado de games no Brasil cresce a taxas bem mais altas. Isso tem chamado a atenção das principais multinacionais do setor", disse à BBC Brasil Glauco Rozner, diretor comercial da Sony para VAIO e Playstation.

De olho no aquecido mercado brasileiro, a Microsoft, que fabrica o console Xbox, optou por nacionalizar a fabricação do produto no ano passado.

"Com a produção sendo feita na Zona Franca de Manaus, conseguimos reduzir o preço do nosso console em 40%, o que nos rendeu maior participação de mercado", afirmou Guilherme Camargo, gerente-geral do Xbox no Brasil.

Dada a importância do Brasil, as grandes multinacionais do setor também têm apostado em lançar as últimas novidades de consoles e jogos no país praticamente ao mesmo tempo que nos mercados desenvolvidos - e, na maior parte dos casos, com os comandos já traduzidos para o português.

Novos players

Com o crescimento do mercado de games no Brasil, empresas que antes não tinham escritórios no Brasil dispensaram os intermediários e assumiram as operações no país.

A americana Activision, desenvolvedora e distribuidora de jogos eletrônicos, abriu, recentemente, um escritório de vendas em São Paulo. A japonesa Capcom, conhecida pela franquia Street Fighter, também seguiu o mesmo caminho.

"Nos últimos anos, o mercado brasileiro já se igualou senão já superou o do México", afirmou à BBC Brasil John DiLullo, diretor de marketing e vendas para a América Latina da Activision.

Pioneiros também foram os desenvolvedores de jogos, que vieram ao Brasil pela primeira vez para conversar com o público sobre o processo de criação dos games.

Segundo Hans Lo, que participou da equipe que criou a popular série Mortal Kombat, "o Brasil pode se tornar eventualmente um celeiro de desenvolvedores fora do eixo Estados Unidos e Japão".

Entraves

No entanto, segundo especialistas, o caminho rumo à liderança mundial é repleto de desafios.

"Se, por um lado, a pirataria, antes um problema endêmico do mercado, foi reduzida a partir das novas funcionalidades presentes nos jogos, os preços dos jogos ainda continuam relativamente altos se comparados ao padrão mundial", diz Gilliard Lopes, produtor da série FIFA na Electronic Arts (EA).

Segundo Lopes, nos jogos piratas, não é possível jogar em rede, o que reduz um dos maiores atrativos dos games atuais: a oportunidade de desafiar um oponente virtual a qualquer momento desde que se tenha um acesso à Internet.

O maior entrave, contudo, continua sendo a alta carga tributária, que responde por mais da metade do valor do console, equivalente a de setores como o de bebidas alcoólicas e o de cigarros.

"Como resultado, o Brasil tem os maiores preços, tanto de consoles, quanto de games, de todos os países da América Latina", disse à BBC Brasil Bill Van Zyll, diretor da Nintendo para a América Latina.

"Ao atacar as tarifas alfandegárias e os impostos, o país pode ficar entre os maiores do mundo e permitir à indústria desenvolver-se no seu máximo potencial", acrescentou. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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