Mercadante vê Lula, ignora anúncio da véspera e fica na liderança do PT

Após declarar que renúncia era ?irrevogável?, ele sobe à tribuna e alega que não poderia contrariar presidente

Christiane Samarco e Eugênia Lopes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2009 | 00h00

Depois de três ameaças e do anúncio oficial da "renúncia irrevogável?, o senador Aloizio Mercadante (SP) informou ontem da tribuna do Senado que vai continuar na liderança da bancada do PT. "Esta Casa errou, o meu governo errou, o meu partido errou, nós erramos, eu errei", disse Mercadante, ao socializar os problemas . "Eu não posso dizer não ao presidente da República e ao meu velho companheiro Luiz Inácio Lula da Silva."Mercadante subiu à tribuna e fez da sexta-feira de plenário vazio o "dia do fico". Apesar de ter prometido um discurso para as 9 horas, só chegou ao plenário às 11 horas, depois de receber do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a carta de apoio prometida na noite anterior, em reunião de cinco horas no Palácio da Alvorada. "Tivemos uma conversa franca, dura, sincera e profunda", disse o líder em um discurso que havia sido preparado de véspera para a renúncia, mas que foi atualizado e adaptado para o novo cenário. A carta foi a saída honrosa para o recuo da "renúncia irrevogável", mas Mercadante teve de concordar, de público, com a principal tese do comando do PT para salvar José Sarney (PMDB-AP) no Conselho de Ética - que a crise era comandada pela oposição para tirar proveito eleitoral contra Lula e o PT. O senador defendeu o combate ao "patrimonialismo e ao nepotismo", práticas políticas atribuídas à família Sarney, mas com a condição de "preservar a aliança" que apoia o governo e tem o PMDB entre os aliados.Na carta, com quatro parágrafos, Lula citou a "indignação" de Mercadante com a "situação do Senado" e disse que ele é "imprescindível para a liderança". Lembrou os "30 anos" de lutas conjuntas "que interessam ao povo brasileiro e (estão) mudando a história do País". Um dos motivos que levaram Lula a superar as divergências com Mercadante e a aceitar a revogação da "renúncia irrevogável" foi o pragmatismo político. Era preciso reequilibrar a força do PT frente a um PMDB agigantado pela vitória contra a oposição no Conselho de Ética, com três votos envergonhados de petistas em favor do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP)."O PMDB não podia levar tudo", resumiu um interlocutor do presidente, que acompanha de perto os embates entre petistas e peemedebistas no Senado. Como Mercadante se recusara a atender aos apelos presidenciais para absolver Sarney em nome da governabilidade e do projeto eleitoral de 2010, o jeito foi acionar a Direção Nacional do PT para orientar o voto dos petistas no conselho. A avaliação de setores do governo e do próprio Lula é de que, se por um lado o líder foi "atropelado" pelo Planalto e pelo próprio partido, o PT foi "vergado" pelo PMDB do líder Renan Calheiros (AL).Em conversas reservadas com companheiros, ontem, o próprio Mercadante admitiu que foi "cacifado" por Lula para reequilibrar o jogo de forças no Senado, no governo e na aliança. Não fosse isso, confidenciou, "o PT acabaria virando uma azeitona na empada do PMDB". Com o reforço presidencial, Mercadante é que se encarregará de polarizar com o PMDB. Tudo dentro da tática de criar condições ao PT de sustentar um discurso que o diferencie do PMDB na campanha de 2010. "Subestimaram minha relação com Lula", disse Mercadante a amigos, queixoso da aposta geral de que seria descartado. Na verdade, porém, antes da conversa no Alvorada nem ele próprio supunha que dali sairia uma carta presidencial para que continuasse na liderança.Na véspera, o presidente dera sinais de que não faria esforço por sua permanência e até afirmara que os insatisfeitos dentro do PT poderiam sair do partido. "Se a pessoa quer sair do partido, não está confortável, é um direito da pessoa", dissera Lula, numa referência à saída da senadora Marina Silva (AC) e à anunciada desfiliação de Flávio Arns (PR).Com o trunfo da carta nas mãos, Mercadante foi à tribuna e falou da "frustração, desilusão e descrença" dele e da sociedade com o Senado, diante da decisão do Conselho de Ética de não aprofundar nenhuma investigação em meio a tantas denúncias contra Sarney. E reafirmou que ele e sua bancada defenderam a licença do presidente da Casa. O petista admitiu que perdeu "certa condição" de interlocução política. Mas criticou os que pregam a aliança com o PMDB a qualquer custo.

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