Mercadante diz ser ´bode expiatório´ da PF

Indiciado por crime eleitoral no inquérito que apurava a compra do dossiê contra políticos tucanos, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) acusa a Polícia Federal de incriminá-lo para justificar o fracasso das investigações que não apontaram a origem do dinheiro usado na operação fraudulenta. "Sou o bode expiatório de uma investigação mal sucedida", protesta Mercadante. Ele diz estar convencido de que a PF usou seu nome para evitar que as manchetes dos jornais fossem "a investigação fracassou". Um dirigente petista que acompanhou a indignação de Mercadante nas últimas 24 horas suspeita, no entanto, que a PF tenha jogado para São Paulo a responsabilidade de provar que o dinheiro não veio do suposto caixa 2 da campanha do PT ao governo paulista, para "desviar o foco" da campanha nacional da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse dirigente considera inaceitável que personagens como Freud Godoy, amigo e segurança de Lula, e Jorge Lorenzetti, o ex-coordenador da inteligência da campanha presidencial e churrasqueiro do presidente, que, segundo o petista, era o chefe da operação, tenham "desaparecido" do relatório da PF. Mercadante diz apenas que ficou "estarrecido" com a conclusão do relatório e que sua tranqüilidade, agora, é que o processo sairá da PF para o Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda assim, ele quer constituir um advogado, preocupação que não teve até hoje porque só depôs no inquérito uma vez como testemunha, e não na condição de acusado. "Minha segurança é que se trata da mais alta corte do País e que não existe um único elemento probatório contra mim, um telefonema, uma menção ao meu nome", acrescenta. "Como não conseguiram apontar a origem do dinheiro que seria usado na compra do dossiê Vedoin, fazem uma cortina de fumaça com minha campanha e invertem o ônus da prova", reclama, ao protestar contra o fato de tentarem transferir para ele a tarefa de provar que o milhão de reais apreendido não saiu de sua campanha. O crime eleitoral imputado ao senador é o de não ter declarado, na prestação de contas de sua campanha ao governo de São Paulo, o dinheiro de origem não explicada. A acusação formal consta do Artigo 350 do Código Eleitoral: "omitir do documento público ou particular declaração que dele devia constar". "Para fazer esta ilação de que o dinheiro saiu da minha campanha, teriam que demonstrar que o dinheiro entrou no caixa e saiu para a compra do dossiê", insiste Mercadante. Segundo ele, não há nenhum vínculo, nenhum elo concreto que ligue a operação do dossiê com sua campanha. "Se eu tivesse mentido e declarado que tinha esse recurso no meu caixa de campanha não haveria crime?", indaga, ao destacar que jamais poderia declarar um dinheiro que não passou por sua campanha. Mercadante não tem dúvida de que falta fundamentação jurídica à acusação, porque não há indício nem evidência contra ele. Admite, entretanto, que terá mesmo de amargar o desgaste de ter contratado Hamilton Lacerda para assessorá-lo na campanha. "Mas o Hamilton só começou a trabalhar comigo em março e com um currículo impecável: presidiu o Diretório Central Estudantil (DCE) da Unicamp, fez mestrado na Fundação Getúlio Vargas, foi vice-presidente UNE, vereador duas vezes e foi eleito coordenador (do PT) da macro-região do ABC, por unanimidade". "Com um histórico desses, como é que eu podia imaginar que ele me daria um problema desses?, indaga. Em seguida, lembra que, assim que soube do envolvimento de Lacerda com o dossiê, afastou-o imediatamente da campanha. "Além disso, ele mesmo disse em seu depoimento que eu não sabia de nada, que não aceitava esse método e me pediu desculpas públicas", encerra.

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