Mensalão não mobiliza e Margaridas mexem muito mais com Brasília

Brasília acordou nesta manhã com cercade 30 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. O trânsitoparou, mas não por causa do mensalão. No dia em que o SupremoTribunal Federal iniciou o julgamento da denúncia de corrupçãoque fez o governo tremer em 2005, a Marcha das Margaridas mexeumuito mais com a capital do que a tão aguardada sessão. Enquanto o procurador-Geral da República, Antonio Fernandode Souza, reiterava a acusação contra o que chamou de"quadrilha dos 40", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seencontrava com o movimento social das mulheres do campo e faziaum aplaudido discurso para os "pobres" da nação. Na mais alta corte do país, apenas uma estudante protestavado lado de fora. Solitária, ela empunhava uma faixa de "basta"para os fotógrafos e cinegrafistas. Um grupo de três médicas doRio de Janeiro que fazia turismo em frente ao prédio do STF,rodeado por jornalistas, confessava não ter idéia do que sepassava lá dentro. No interior da bela construção de Oscar Niemeyer, oplenário não estava lotado e o público se restringia aadvogados, estudantes de direito e jornalistas. A classe política também passou ao largo do julgamento. Nocafezinho dos deputados, lugar privativo aos parlamentares e àimprensa, a televisão ligada transmitia o amistoso Brasil xArgélia. Somente dois políticos marcaram presença no STF: osdeputados Antônio Carlos Pannunzio (SP), líder do PSDB, e OsmarSerraglio (PMDB-PR), relator da extinta CPI dos Correios. "Eles não estão julgando nada ainda. Só estão lendocoisas", afirmou o deputado Silvio Costa (PMN), resumindo odesinteresse. O Supremo só deve decidir se acata ou recusa adenúncia do Ministério Público na próxima sexta-feira. Tranquilo no plenário da Casa, um deputado do Democratas,membro da CPI que investigou o caso à época, revelou, nacondição do anonimato, o nível de preocupação com o julgamento. "Mensalão? Estamos mais preocupados em resolver a criseinterna da oposição que cuidar desse assunto. Lula foireeleito. Teria sentido fazer algo? Talvez sim, mas nãofizemos." HORA DO LANCHE Sobre o mármore branco da entrada do Supremo TribunalFederal, advogados dos 40 acusados usavam a hora do lanche parafumar um cigarro e reclamar do procurador. Um deles, já naterceira pausa do julgamento, chegou a dizer aos colegas defunção que a denúncia era mais um "roteiro de cinema" do queuma peça legal. Com alfinetadas elegantes e com pronomes formais, poucasvezes o plenário do tribunal protagonizou saias justas duranteo dia. O advogado Arnaldo Malheiros Filho, responsável peladefesa de Delúbio Soares, chegou a chamar a denúncia de"imprestável". A declaração fez Antonio Fernando baixar acabeça e soltar um leve sorriso de canto de boca. Nada mais. Do outro lado da rua, Lula cumpria uma agenda cheia, massem tocar no assunto. Falando às mulheres do campo, destacavaas conquistas populares e disparava farpas às elites. "O Brasil não está acostumado a isso", disse Lula,referindo-se à marcha das camponesas. "Se fossem mulheres ehomens de outros segmentos da sociedade, de maior posse, issoseria visto como coisa normal. Afinal de contas, podem pagarpassagem para vir de avião e podem vir de carro". No mesmo momento que o STF debatia o recente passadopolítico, alguns ministros de Estado se reuniam com empresáriospara tratar do futuro da infra-estrutura brasileira, outroevento que contará com a presença de Lula na quinta-feira.

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