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Eliane Cantanhêde
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Menos líderes, mais povo

Uma das grandes dificuldades num momento tão grave é a falta de lideranças para discutir saídas e construir consensos contra a crise. Negociar o quê? Com quem?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2015 | 02h03

No Congresso, até o presidente da Câmara e o do Senado, segundo e terceiro na lista de sucessão, estão sendo investigados pelo Supremo. Cadê os Ulysses Guimarães?

Na Igreja, foram-se os tempos de d. Paulo Evaristo Arns, d. Luciano Mendes de Almeida, d. Eugênio Sales, d. Lucas Neves. Que cardeal tem hoje essa dimensão? (E o bispo Macedo se dando bem...)

Na OAB, na ABI, onde se escondem os Barbosa Lima Sobrinho, os Raymundo Faoro, os Evandro Lins e Silva? Bem, na UNE nem se fala mais.

Nas centrais sindicais, sobram o alinhamento automático da CUT ou o histrionismo imprudente da Força Sindical. Não se fazem mais Lulas como antes.

E no empresariado? Um Jorge Gerdau, que poderia ser de grande valia numa roda de negociações, confundiu-se com o governo. Um Paulo Lemann está olhando mais para fora do que para dentro do País. Paulo Skaf tem estatura para o momento?

Até nas Forças Armadas falta um general Leônidas Pires Gonçalves que ouça acertos democráticos e propague para seu público interno. Está cada um na sua.

Sem líderes que apontem o futuro, destacam-se Fernando Henrique Cardoso, o maior líder da oposição, e Luiz Inácio Lula da Silva, o patrono do governo Dilma Rousseff, que faz água para todo lado.

O pronunciamento de domingo foi uma tragédia no conteúdo e na forma. Usar o Dia da Mulher, com um blazer verd- bandeira e sorrindo como se estivesse tudo na santa paz, para repetir o blá-blá-blá de crise internacional e pedir paciência? Com o grau de irritação da sociedade, é claro que haveria um panelaço, servindo como convocação para a manifestação de 15 de março.

Nessa crise, só falta um fator: a rua. Sociólogo, ex-presidente e ex-senador, FHC diz que é hora de os líderes, ou o que resta deles, observarem e analisarem. "A rua, neste momento, não é dos partidos, é do povo."

É um equilíbrio delicado. Os partidos de oposição nem podem capitanear o "Fora, Dilma" nem podem virar as costas para o protesto popular. E se as manifestações encorparem?

Assumir a dianteira do "Fora, Dilma" seria leviano, porque não se parte para uma aventura dessas sem ter o "day after" predefinido e não há líderes (no Congresso e na sociedade) com dimensão para articular consensos. Empurrar Dilma rampa abaixo para pôr quem e o que no lugar?

Mas também não dá para assistir ao estouro da boiada de camarote e lavar as mãos. A sociedade passaria por cima dos líderes e dos partidos, com risco de uma guerra campal entre os contra e os a favor de Dilma.

Atenção a um trecho da entrevista de FHC ao Estado. Depois que ele descartou o afastamento já de Dilma, perguntei: "E se as manifestações forem num crescendo, o sr. não vê horizonte de impeachment?" Ele deixou implícito que a coisa pode mudar de figura: "Eu não posso dizer que seria impossível, porque as coisas não são assim em política". Leia-se: depende do "povo".

Cada um com seus dilemas. Se pudesse, Lula também teria ido para a janela bater panela, reclamar da economia, da desagregação política, da desconstrução do seu legado. Mas Dilma é o PT no poder e o que interessa para Lula é o PT.

FHC e Lula já ensaiaram algumas conversas, mas os emissários, como o ministro José Eduardo Cardozo e o faz-tudo do PT Sigmaringa Seixas, vão e voltam de mãos vazias. Se não dá para conversar com Lula, talvez FHC pudesse conversar com Dilma. Mas, se ela não ouve nem Lula, por que ouviria FHC?

Moral da história: faltam líderes e os que sobram não se entendem. A crise continua.

Dúvida. Quer dizer que os mais bem informados, com mais noção da crise, não podem se manifestar? Só os "cumpanheiros" podem?

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