Mendonça toma posse no STF, vai a culto e diz que critério evangélico é de inclusão social

O magistrado foi recebido no templo com canções e louvores, abraçou o presidente Jair Bolsonaro e agradeceu pela indicação

Weslley Galzo e Felipe Frazão - O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA — O primeiro ato do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, logo após tomar posse, na tarde desta quinta-feira, 16, foi participar de um culto de Ação de Graças em sua homenagem na Catedral da Baleia, sede da Assembleia de Deus Ministério Madureira, em Brasília. A celebração contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro, da primeira-dama Michelle, de deputados, senadores, ministros e integrantes do Judiciário.

O magistrado “terrivelmente evangélico”, alcunha dada por Bolsonaro, foi recebido naquele templo com canções e louvores. Abraçou o presidente e agradeceu pela indicação. Os dois apontaram para o céu. O novo ministro do Supremo foi apresentado não só pelo nome que adotou na Corte, mas com o título religioso: “Pastor André Mendonça”.

'O primeiro compromisso que eu queria reiterar, na verdade, é com a democracia, os valores da nossa Constituição e, em especial, com a Justiça', afirmou André Mendonça. Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Embora o critério evangélico não seja constitucional, é uma forma de inclusão social”, disse o magistrado, que cumprimentou líderes de várias denominações religiosas. “Nós tomamos tubaína juntos, trocamos informações e sentimentos, chegamos a quase chorar juntos. Sinto nele uma coisa que escapa pelas mãos de alguns: a gratidão”, afirmou Bolsonaro. Michelle, por sua vez, conclamou o novo ministro a “combater o mal com amor”.

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Ao discursar, Mendonça defendeu mais uma vez o Estado laico, mas adotou posição ambígua ao comparar sua chegada ao STF a “um passo para um evangélico, mas um salto para toda a igreja”. Poucas horas antes, ele havia tomado posse no Supremo em cerimônia também prestigiada pelo presidente, pelo vice Hamilton Mourão e por chefes dos Poderes. Ali, fez questão de destacar que pretendia ajudar a “consolidar a democracia” e defendeu a liberdade de imprensa.

“O primeiro compromisso que eu queria reiterar, na verdade, é com a democracia, os valores da nossa Constituição e, em especial, com a Justiça. A Justiça enquanto valor e ideal”, afirmou Mendonça. “Eu espero poder contribuir com a Justiça brasileira e o Supremo Tribunal Federal e ser, ao longo desses anos, um servidor e um ministro que ajude a consolidar a democracia, esses valores, garantias e direitos, que já estão estabelecidos nos interesses da nossa Constituição.”

Ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, Mendonça disse que a imprensa poderia contar com seu respeito na “defesa irrestrita da liberdade e das prerrogativas do livre exercício da profissão” de jornalista. “Vocês são fundamentais para a construção do nosso país e da nossa democracia”, afirmou. Ao menos no discurso sobre a imprensa, o ministro procurou se “descolar” de Bolsonaro.

Segundo nome indicado pelo presidente para o STF, Mendonça assume o cargo em novo momento de tensão entre o Planalto e a Corte, uma vez que há inquéritos contra Bolsonaro e aliados tramitando ali. No ano passado, o presidente emplacou no tribunal Kassio Nunes Marques, mas foi o “terrivelmente evangélico” que enfrentou as maiores resistências.

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Martins, e o ministro do STF Ricardo Lewandowski  prestigiaram o culto, além de Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU). Adventista, Martins foi preterido pelo Planalto e não teve apoio de líderes religiosos. Em discurso improvisado, ele destacou virtudes cristãs do novo ministro e cometeu duas gafes: saudou o presidente como Jair “Soares” Bolsonaro, em vez de “Messias”, e trocou rei Salomão por “apóstolo Salomão”.

O Estadão apurou que os organizadores do culto tinham previsto discursos de Kassio Nunes Marques e também da ministra do STF Rosa Weber, mas eles não apareceram. Lewandowski, por sua vez, subiu ao púlpito e disse estar convencido de que o novo colega é uma pessoa de caráter, que prestará relevantes serviços ao Brasil. "Não vejo nenhum problema em ele ser religioso. Pelo contrário, é uma virtude", disse Lewandowski.

A cerimônia também foi prestigiada por parlamentares e pela maior parte dos ministros, dos quais os mais aplaudidos foram Damares Alves, pastora da Igreja da Lagoinha, e Tarcísio Freitas (Infraestrutura). O presbiteriano Milton Ribeiro (Educação) abriu o culto com uma oração.

O bispo primaz Manuel Ferreira, principal chefe religioso da Convenção Madureira – fundada no Rio – não compareceu ao culto, embora fosse aguardado na Catedral da Baleia. Ferreira provocou mal estar no meio evangélico e na relação da igreja com o Palácio do Planalto ao se reunir recentemente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e posar para fotos ao lado dele. Segundo seus filhos, o bispo primaz não compareceu para poupar a saúde, já que é nonagenário.

Samuel Ferreira disse, porém, que seu pai ama e ora por Bolsonaro e pela primeira-dama. Ele e o irmão, bispo Abner Ferreira, se revezaram na condução do culto. Abner assumiu a presidência da Comissão Especial de Juristas Evangélicos  e Cristãos da OAB.

"Não gostamos que falem mal de político para nós. A Bíblia não manda falar mal de ninguém, manda falar bem", observou Samuel. O bispo também afirmou que a igreja ora também pelos ministros do governo e do Supremo.

Antes da entrada da comitiva no altar, ele reclamou de desrespeito a Michelle Bolsonaro, quando ela comemorou a aprovação de Mendonça falando em línguas, o que, para o pentecostalismo, é uma expressão do Espírito Santo. Disse que o País foi "atiçado" contra Michelle, segundo ele uma "serva de Deus", e pediu que os fiéis ficassem atentos contra pessoas que pudessem se manifestar contra Bolsonaro.

Ao manifestar essa preocupação com atitudes que não seriam "coisa de crente", alertou que poderiam estar presentes no templo pessoas mal intencionadas e lembrou que o presidente foi esfaqueado por alguém próximo dele, na campanha de 2018.

"Ela é pentecostal, fala em línguas estranhas e representa a gente", disse Samuel Câmara, ao pedir um discurso de improviso. "Se  sentir vontade de falar em língua, metralha. Hoje vai ser metralhadora de línguas", disse ele aos fiéis.

Michelle também pediu orações pelas autoridades, mesmo quando reprovadas. "A Bíblia ensina que devemos orar por todas as autoridades, gostando ou não, temos esse dever e essa gratidão", disse Michelle, lembrando de momentos difíceis até a aprovação de Mendonça. "Deus foi fiel, ah, ele foi fiel."

Líderes religiosos de outras denominações, como Samuel Câmara, da Assembleia de Deus Belém - Igreja Mãe, e o reverendo Roberto Brasileiro, do Supremo Concílio das Igrejas Presbiterianas do Brasil, também marcaram presença no culto. Roberto Brasileiro lidera a ala evangélica a qual Mendonça é filiado como pastor da Igreja Presbiteriana Esperança, em Brasília.

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Mendonça toma posse no STF, vai a culto e diz que critério evangélico é de inclusão social

O magistrado foi recebido no templo com canções e louvores, abraçou o presidente Jair Bolsonaro e agradeceu pela indicação

Weslley Galzo e Felipe Frazão - O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA — O primeiro ato do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, logo após tomar posse, na tarde desta quinta-feira, 16, foi participar de um culto de Ação de Graças em sua homenagem na Catedral da Baleia, sede da Assembleia de Deus Ministério Madureira, em Brasília. A celebração contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro, da primeira-dama Michelle, de deputados, senadores, ministros e integrantes do Judiciário.

O magistrado “terrivelmente evangélico”, alcunha dada por Bolsonaro, foi recebido naquele templo com canções e louvores. Abraçou o presidente e agradeceu pela indicação. Os dois apontaram para o céu. O novo ministro do Supremo foi apresentado não só pelo nome que adotou na Corte, mas com o título religioso: “Pastor André Mendonça”.

'O primeiro compromisso que eu queria reiterar, na verdade, é com a democracia, os valores da nossa Constituição e, em especial, com a Justiça', afirmou André Mendonça. Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Embora o critério evangélico não seja constitucional, é uma forma de inclusão social”, disse o magistrado, que cumprimentou líderes de várias denominações religiosas. “Nós tomamos tubaína juntos, trocamos informações e sentimentos, chegamos a quase chorar juntos. Sinto nele uma coisa que escapa pelas mãos de alguns: a gratidão”, afirmou Bolsonaro. Michelle, por sua vez, conclamou o novo ministro a “combater o mal com amor”.

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“O primeiro compromisso que eu queria reiterar, na verdade, é com a democracia, os valores da nossa Constituição e, em especial, com a Justiça. A Justiça enquanto valor e ideal”, afirmou Mendonça. “Eu espero poder contribuir com a Justiça brasileira e o Supremo Tribunal Federal e ser, ao longo desses anos, um servidor e um ministro que ajude a consolidar a democracia, esses valores, garantias e direitos, que já estão estabelecidos nos interesses da nossa Constituição.”

Ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, Mendonça disse que a imprensa poderia contar com seu respeito na “defesa irrestrita da liberdade e das prerrogativas do livre exercício da profissão” de jornalista. “Vocês são fundamentais para a construção do nosso país e da nossa democracia”, afirmou. Ao menos no discurso sobre a imprensa, o ministro procurou se “descolar” de Bolsonaro.

Segundo nome indicado pelo presidente para o STF, Mendonça assume o cargo em novo momento de tensão entre o Planalto e a Corte, uma vez que há inquéritos contra Bolsonaro e aliados tramitando ali. No ano passado, o presidente emplacou no tribunal Kassio Nunes Marques, mas foi o “terrivelmente evangélico” que enfrentou as maiores resistências.

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Martins, e o ministro do STF Ricardo Lewandowski  prestigiaram o culto, além de Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU). Adventista, Martins foi preterido pelo Planalto e não teve apoio de líderes religiosos. Em discurso improvisado, ele destacou virtudes cristãs do novo ministro e cometeu duas gafes: saudou o presidente como Jair “Soares” Bolsonaro, em vez de “Messias”, e trocou rei Salomão por “apóstolo Salomão”.

O Estadão apurou que os organizadores do culto tinham previsto discursos de Kassio Nunes Marques e também da ministra do STF Rosa Weber, mas eles não apareceram. Lewandowski, por sua vez, subiu ao púlpito e disse estar convencido de que o novo colega é uma pessoa de caráter, que prestará relevantes serviços ao Brasil. "Não vejo nenhum problema em ele ser religioso. Pelo contrário, é uma virtude", disse Lewandowski.

A cerimônia também foi prestigiada por parlamentares e pela maior parte dos ministros, dos quais os mais aplaudidos foram Damares Alves, pastora da Igreja da Lagoinha, e Tarcísio Freitas (Infraestrutura). O presbiteriano Milton Ribeiro (Educação) abriu o culto com uma oração.

O bispo primaz Manuel Ferreira, principal chefe religioso da Convenção Madureira – fundada no Rio – não compareceu ao culto, embora fosse aguardado na Catedral da Baleia. Ferreira provocou mal estar no meio evangélico e na relação da igreja com o Palácio do Planalto ao se reunir recentemente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e posar para fotos ao lado dele. Segundo seus filhos, o bispo primaz não compareceu para poupar a saúde, já que é nonagenário.

Samuel Ferreira disse, porém, que seu pai ama e ora por Bolsonaro e pela primeira-dama. Ele e o irmão, bispo Abner Ferreira, se revezaram na condução do culto. Abner assumiu a presidência da Comissão Especial de Juristas Evangélicos  e Cristãos da OAB.

"Não gostamos que falem mal de político para nós. A Bíblia não manda falar mal de ninguém, manda falar bem", observou Samuel. O bispo também afirmou que a igreja ora também pelos ministros do governo e do Supremo.

Antes da entrada da comitiva no altar, ele reclamou de desrespeito a Michelle Bolsonaro, quando ela comemorou a aprovação de Mendonça falando em línguas, o que, para o pentecostalismo, é uma expressão do Espírito Santo. Disse que o País foi "atiçado" contra Michelle, segundo ele uma "serva de Deus", e pediu que os fiéis ficassem atentos contra pessoas que pudessem se manifestar contra Bolsonaro.

Ao manifestar essa preocupação com atitudes que não seriam "coisa de crente", alertou que poderiam estar presentes no templo pessoas mal intencionadas e lembrou que o presidente foi esfaqueado por alguém próximo dele, na campanha de 2018.

"Ela é pentecostal, fala em línguas estranhas e representa a gente", disse Samuel Câmara, ao pedir um discurso de improviso. "Se  sentir vontade de falar em língua, metralha. Hoje vai ser metralhadora de línguas", disse ele aos fiéis.

Michelle também pediu orações pelas autoridades, mesmo quando reprovadas. "A Bíblia ensina que devemos orar por todas as autoridades, gostando ou não, temos esse dever e essa gratidão", disse Michelle, lembrando de momentos difíceis até a aprovação de Mendonça. "Deus foi fiel, ah, ele foi fiel."

Líderes religiosos de outras denominações, como Samuel Câmara, da Assembleia de Deus Belém - Igreja Mãe, e o reverendo Roberto Brasileiro, do Supremo Concílio das Igrejas Presbiterianas do Brasil, também marcaram presença no culto. Roberto Brasileiro lidera a ala evangélica a qual Mendonça é filiado como pastor da Igreja Presbiteriana Esperança, em Brasília.

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