Mellão acusa Maluf de receber dólares em caixas de uísque

Caixas de uísque Johnny Walker ? sem as garrafas, mas carregadas de dólares ? chegavam às mãos de Reynaldo de Barros e depois seguiam para Paulo Maluf. Cada caixa continha US$ 1,2 milhão. O ritual era cumprido às quintas-feiras. Durante a gestão de Maluf como prefeito da Capital (1993-96), cerca de US$ 1 bilhão pode ter sido desviado de obras públicas e tomado o destino de paraísos fiscais.A denúncia foi feita à Promotoria de Justiça da Cidadania pelo ex-presidente da Câmara Armando Mellão Neto e por Marcos Feliciano de Oliveira, o Capacete, ex-motorista de Reynaldo. Antes de assumir o mandato de vereador, em 1997, Mellão foi assessor particular de Reynaldo, então secretário de Serviços e Obras do governo Maluf. Reynaldo teria sido o arrecadador de Maluf em um esquema de propinas com empreiteiras.Mellão foi preso pela Polícia Federal em abril, acusado de extorquir empresários e políticos na mira da CPI do Banestado. Há duas semanas, a Justiça mandou soltar o ex-vereador. Inimigo de Reynaldo, Mellão declarou que ele seria o dono da offshore Ber Corporation, no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Em nome dessa empresa, Reynaldo pode ter movimentado US$ 250 milhões no Merryl Linch de Miami. Mellão depôs no inquérito que investiga contas milionárias de Maluf na Suíça e Ilha de Jersey. Também prestou depoimento no inquérito o servidor aposentado Marcos Capacete, que trabalhava com Reynaldo e morou em sua casa durante 8 anos. Ontem, Capacete entregou aos promotores documentos e fotos de propriedades do ex-secretário de Obras, inclusive na Flórida. Capacete revelou que Reynaldo tem apartamento em Miami, uma ilha em Angra dos Reis, 4 fazendas e o iate Mistral. Afirmou ter ?presenciado várias vezes? representantes de empreiteiras entregarem as caixas de uísque ? com os dólares ? na casa do ex-secretário, no Jardim Paulista. ?Algumas caixas ficavam na casa do dr. Reynaldo, as outras ele próprio levava para o Maluf?, contou ao Ministério Público.Ele disse que resolveu delatar seu antigo patrão porque um filho do ex-secretário, Reynaldo de Barros Filho, o acusou de ser mandante de assassinato na Zona Leste ? a vítima teria revelado detalhes da máfia dos fiscais, envolvendo Mellão. O ex-presidente da Câmara afirmou que a rede de propinas funcionou em obras como o Túnel Ayrton Senna e a Avenida Água Espraiada. Disse que Flávio Maluf, filho mais velho do ex-prefeito, ?sabia dos desvios e fazia a operacionalização das remessas ao exterior?. Do total investido no túnel, ?cerca de 30% foram destinados ao pagamento de propina?, declarou. O ex-prefeito foi intimado a depor no dia 15. ?As provas (contra Maluf) são absolutamente contundentes?, avalia Silvio Marques, promotor de Justiça. ReaçãoMaluf anunciou que vai processar seus acusadores. ?As mentiras contidas nos depoimentos de Mellão e Capacete têm a mesma credibilidade do conteúdo de uma latrina?, reagiu, por meio de nota. ?Mellão é conhecido chantagista, apanhado e detido pela Polícia Federal em flagrante delito, gravado pela televisão, quando extorquia dinheiro, dizendo representar um deputado federal de uma CPI?, diz a nota. ?Capacete, sócio do ex-vereador, já esteve preso por extorquir dinheiro dos camelôs de São Paulo, é suspeito de ser o assassino de uma pessoa e tem ficha de vida pregressa extensa nos arquivos policiais.? O advogado Laércio Benko Lopes, defensor de Reynaldo de Barros, ressaltou que Mellão ficou 45 dias preso na PF: ?A prisão teve pouco efeito didático para Mellão?.

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