Melhor para cargo sou eu, diz senador

Peemedebista garante que ainda tem condições de presidir Casa

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Apesar da pressão dos partidos de oposição, que ameaçaram ontem paralisar a agenda de votação do governo no Congresso, e do próprio Palácio do Planalto, que deseja pelo menos seu afastamento temporário do cargo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deixou explícito ontem que não pretende deixar o posto de forma alguma - seja por renúncia, licença ou férias. "Deus não me deu o dom da desistência", disse, em entrevista exclusiva à Rádio Gaúcha - a única que concedeu ao longo do dia.Indagado se ainda mantém as condições políticas para continuar comandando o Senado em votações polêmicas como a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), não deixou dúvidas sobre sua disposição: "Sempre. O Senado renovou a confiança em mim. Depois dessa campanha nunca vista no Brasil, significa dizer que, se eu não tiver condições de presidir o Senado, quem é que vai ter, num quadro de absoluta divisão?"Quem esteve com Renan na noite de quarta-feira, como o senador Edison Lobão (DEM-MA), já sabia que a operação do Palácio do Planalto para forçar a licença do presidente do Senado não seria fácil. "O Renan é muito cabeça dura", resumiu Lobão. Como ficou difícil falar em licença, os líderes aliados e governistas começaram a defender a tese de que o melhor para o presidente do Senado é viajar com a família, para se recuperar dos mais de cem dias que ele próprio definiu como "um calvário, de muito sofrimento e muita dor". FÉRIAS"Vou pedir a Renan que tire férias", comentou, em conversas reservadas no meio da tarde, a líder do governo no Congresso, Roseana Sarney (PMDB-MA). Àquela altura, ela estava no fundo do plenário e nem sabia que o senador alagoano acabara de chegar ao cafezinho da Casa. "O senhor vai sair de férias?", perguntaram os jornalistas. "Não pensei e não penso em afastamento, e não pretendo tirar férias. Não estou cansado, não", disse Renan.Em seguida, fez questão de cantar vitória. "Depois dessa campanha de 110 dias, tivemos uma quebra de apenas cinco votos", afirmou, referindo-se à votação que obteve na disputa pela presidência a Casa, quando venceu o adversário e líder do DEM, José Agripino (RN), com um placar de 51 votos a 28. "Eu próprio votei abstenção (no processo de cassação)", disse. "Chego com a humildade que sempre tive com os companheiros. Ontem, chamei todos à conciliação." O vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), admitiu que a disposição de Renan de se manter no comando da Casa causará problemas ao governo. "Há muito ressentimento nos partidos de oposição e nos partidos que tinham até sensibilidade com a CPMF", observou. "Nós viveremos profundas dificuldades para aprovar essa matéria legislativa que interessa ao governo, que interessa ao Brasil, porque estamos falando de R$ 36 bilhões ou mais como receita para investimento em projetos sociais e na área da saúde."PROCESSOA denúncia pela qual Renan acabou absolvido por 40 votos a 35 e 6 abstenções é apenas o primeiro de três processos abertos no Conselho de Ética - há ainda uma quarta representação a ser analisada. O presidente do Senado se livrou do caso sobre o suposto pagamento de despesas pessoais por Cláudio Gontijo, um lobista da empreiteira Mendes Júnior. Gontijo era quem pagava despesas de aluguel e pensão à jornalista Mônica Veloso, com a qual Renan teve uma filha fora do casamento, três anos atrás. A denúncia foi feita pela revista Veja em 25 de maio - e depois dela seguiram-se outras três, duas delas já na fila do Conselho de Ética do Senado.Mônica, que nos anos 90 havia sido apresentadora de um jornal de TV em Brasília, confirmou que recebia em dinheiro vivo, de Gontijo, até dezembro de 2005 - o mês em que Renan se dispôs a reconhecer a paternidade da menina. Entre outras operações, houve uma transferência de R$ 100 mil e alguns pagamentos mensais de R$ 12 mil.NOTASEm seu empenho em provar que dispunha do dinheiro, e que a denúncia era falsa, Renan se complicou. Disse que o havia obtido com a venda de gado de uma fazenda que tem em Alagoas, mas os anunciados compradores, procurados pelo Jornal Nacional da TV Globo, negaram a operação. A Polícia Federal descobriu, dias depois, que as notas fiscais apresentadas pelo senador eram frias. No Senado, o PSOL pediu ao Conselho de Ética que investigasse Renan por quebra de decoro parlamentar. Ele tentou de tudo para barrar a investigação: forçou a mudança de relator do processo, trocou o presidente do conselho e batalhou, sem sucesso, pelo voto secreto na votação do colegiado. Perdeu por 11 a 4. No plenário, porém, o senador alagoano saiu vencedor. COLABORARAM GABRIEL MANZANO e ELDER OGLIARI

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.