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Meia volta, volver

Bolsonaro não desdiz o que disse, mas começa a desfazer o que fez em educação, saúde...

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 03h00

Depois do desmanche de saúde, educação, meio ambiente, cultura e política externa, o presidente Jair Bolsonaro não desdiz o que disse, mas começa a desfazer o que fez e “desnomear” quem nomeou. Não é fácil. Saem os agentes do desmanche, mas o comandante, as convicções e as crenças ficam. E continuam sem nenhuma conexão com a ciência e a realidade, ainda envoltos por fantasmas e ideologia.

 

Na Educação, Abraham Weintraub já foi tarde e o presidente se viu diante de uma enxurrada de nomes para o MEC, mas nenhum animador. Que educador com experiência, belo currículo real e respeito na comunidade acadêmica aceita pular num governo que vive às turras com tudo e todos e detesta o MEC, considerado um antro com mais de 90% de esquerdistas e comunistas? Então, foi por exclusão. Se não tem tu, vai de tu mesmo: um pastor conservador.

Pastor e professor, Milton Ribeiro já assumiu ontem cercado de desconfianças. Crianças têm de aprender “com dor”? Assassino de mulher “confunde paixão com amor”? A “balbúrdia” nas universidades, como definiu Weintraub, leva ao “sexo sem limite”? Conclusão: sobram ideias extravagantes, faltam experiência e concepção de política educacional. A esperança é ele cumprir as promessas de “diálogo” e “Estado laico”, além de caprichar na equipe.

A mesma dificuldade de nomes ocorre nas demais áreas vítimas de desmanche. Que médico com nome e biografia a zelar assume a Saúde para fazer tudo o que seu mestre (doutor, epidemiologista, cientista...) Jair Bolsonaro mandar? Que epidemiologista, cientista ou homem público sério admite guerrear contra o isolamento e as máscaras e a favor da cloroquina? Só se for do Centrão ou da Bancada da Bala. A da Bíblia já foi contemplada no MEC.

A sucessão na Saúde ganhou urgência não pela dupla crise (pandemia e condução da pandemia), mas porque o ministro do STF Gilmar Mendes botou o dedo na ferida: a associação do Exército com os erros gritantes de Bolsonaro. Se tivesse falado em “fracasso” ou “tragédia”, não “genocídio”, quem discordaria? Assim, o general Eduardo Pazuello, que tinha decidido ficar na ativa e voltar para a tropa em setembro, vai ter de se antecipar. O Alto Comando do Exército, em 26 de junho, não promoveu ninguém para sua vaga de general. Ela está aberta, esperando a volta dele. E a Saúde está fechada, dependendo da saída.

No Meio Ambiente, a pressão de fundos internacionais, bancos, empresas e agronegócio nacionais, ex-ministros da Economia e ex-presidentes do BC produz consequências: o governo começa a entender que o ambiente não é inimigo, mas aliado essencial do desenvolvimento. Detalhe: quanto mais Bolsonaro se recolhe, pela trégua política e a covid-19, mais o vice Hamilton Mourão se expõe.

E Ricardo Salles? Pairando sobre os escombros da política ambiental, pisoteada por ideologia, preconceito e a famosa “boiada” da reunião de 22 de abril. A queda de Salles é mais dia, menos dia, e o problema é... o sucessor. Não é fácil encontrar um ambientalista capaz de virar sombra de Mourão e conviver com o desprezo de Bolsonaro para o setor. Quem dedicou a vida à preservação da Amazônia e das comunidades indígenas topa assumir a política de destruição assumida pelo presidente? E com o Ibama e o ICMBio na lona, o Inpe sob ataque? Aliás, Salles encheu a pasta de militares, Mourão usa militares na Amazônia.

Na Cultura, após sucessivos vexames, incluindo um secretário nazistoide, Bolsonaro meteu um amigo dos filhos, o ator Mário Frias, e trancou a porta. Ninguém mais vê, ouve ou fala de cultura. Um “problema” a menos. E no Itamaraty? A crise tem data, a da eleição nos EUA. Com vitória de Trump, Ernesto Araújo tem chance pequena. Com derrota, chance zero.

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