Megacidades favorecem propagação de doenças

O processo, considerado irreversível, de criação de megacidades é um fator que favorece o surgimento de doenças da miséria (dengue, tuberculose, chagas) e de doenças do desenvolvimento (problemas cardiovasculares, hipertensão, diabetes). A opinião é do epidemiologista da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Sérgio Arouca, que participou de uma mesa redonda sobre a saúde nas megacidades, durante o 5º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em Curitiba. Para ele, também devem ser incluídos no rol de doenças do desenvolvimento os acidentes de trânsito e a violência. "É um grave problema de saúde pública", afirmou. "Antes de chegar à polícia chegam no posto de saúde." Arouca reforçou sua opinião de que a saúde é resultante da relação entre o homem e o meio ambiente. "E à medida em que as pessoas estão vivendo mais, novos problemas vão surgindo", disse. "A epidemiologia precisa estar vigilante para as doenças emergentes, para os problemas que ainda não se conhece." No caso da dengue, que já atingiu mais de 118 mil pessoas este ano no Rio de Janeiro, com 43 mortes, Arouca acredita que foi a "negligência" que levou a esse volume. "Nunca uma epidemia foi tão anunciada", disse. Para ele, as alterações ambientais estão causando mutações também nos bacilos e vírus transmissores de doenças. "Há, por exemplo, um recrudescimento da tuberculose, e de forma agravada", afirmou. "É uma doença do início do século passado, que volta com bacilo mais resistente." Para ele, a solução dos problemas se dará com o "engajamento da sociedade". Agência Entre os assuntos discutidos no congresso está a Medida Provisória 33, que cria a Agência Federal de Prevenção e Controle de Doenças (Afec). A agência, totalmente estatal, irá substituir a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A intenção do governo é reduzir os 6 mil funcionários, que hoje estão na Funasa, para cerca de 3 mil, com salários entre R$ 3 mil e R$ 7 mil. Segundo o diretor do Centro Nacional de Epidemiologia, do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa da Silva Júnior, a Afec tem como vantagens a possibilidade de fazer um acerto sobre o passivo da Funasa, a melhora no salário dos funcionários e a expansão da estrutura, com a construção de um laboratório de excelência em Brasília. A Afec também terá diretorias específicas para o meio ambiente e para tratar da saúde do índio. O presidente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Pública, José Carvalho de Noronha, disse temer que as ações da agência estejam desatreladas da política de saúde. "Se precisa fazer uma reforma no Ministério da Saúde, que se faça uma reforma e não fique criando uma agência a cada crise", afirmou. Segundo ele, a proposta da Afec surgiu depois da epidemia de dengue. Já o professor do Instituto de Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia, Jairnilson Paim, disse que a criação da agência por medida provisória, sem discussão com os epidemiologistas, faz ressurgir o "entulho autoritário". Mas sua maior preocupação, afirmou, é com o capítulo 5 da medida provisória, que prevê uma "quarentena" em caso de emergência, com o presidente da agência e o ministro da Saúde dispondo sobre o isolamento da pessoa. "Qualquer cidadão deve estar preocupado, porque sua liberdade está ameaçada", disse. O representante do Ministério da Saúde disse que as questões do capítulo 5 devem ser discutidas pelos deputados. "Esse debate tem que ser feito para que não se tirem os direitos individuais", propôs. Quanto ao restante, ele disse apenas respeitar as opiniões divergentes. "A medida provisória vai ser discutida no Congresso", afirmou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.