Medo impera em assentamento onde sem-terra foi assassinado

José Cândido da Silva, 58 anos, presidente da Associação de Assentados de Mascatinho, ligado ao MST, no município de Tamandaré, a 108 quilômetros do Recife, foi assassinadocom dois tiros de espingarda 28 na manhã de ontem, em uma emboscada. Marcado para morrer, ele denunciava constantemente a ação de madeireiros que derrubavam a mata da área de reserva do assentamento e vinha sendo ameaçado de morte há cerca de um ano. A direção do MST vincula a sua morte às denúncias, que foram confirmadas pelo vice-prefeito e secretário de Agricultura do município, Paulo Romero Pereira da Silva (PSB). ?Os primeiros ofícios feitos pela prefeitura nesse anoforam dirigidos à delegacia de polícia e à Polícia Militar pedindo providências diante das constantes ameaças de morte que ele vinha sofrendo?, afirmou Silva, reiterando a ação firme do agricultor contra a destruição da mata.As áreas de assentamento na zona da mata que incluem trechos de mata atlântica reservam 20% das terras para a preservação da floresta, em cumprimento a lei federal. O assentamento de Mascatinho, criado há cinco anos, tem 62 famílias assentadas e possui 600 hectares de terras agricultáveis e 200 hectares de área de reserva, que deve permanecer intocada.O coordenador do MST na microrregião de Tamandaré, Ercílio Ferrari, disse que José Cândido denunciou os pedradores ao Ibama, Incra e prefeitura, conseguindo, há seis meses, uma inspeção de uma equipe do Ibama. Depois dasaída dos agentes do órgão, os cortes de árvores voltavam a ocorrer. ?Alguns são tatuados, eles entram com espingardas e usam motosserras e machados?, contou José Olímpio Silva, um dos assentados. ?Aparecem normalmente à noite, mas também nos feriados e finais de semana?. A impotência dos assentados, segundo José Olímpio, é total.?Eles entram de 12 (espingarda) e a gente não tem um canivete?. MedoO medo domina o assentamento. José Olímpio já desistiu de ser secretário da associação devido às ameaças de morte que também recebia. Depois da morte do presidente, que estava no seu segundo mandato à frente da associação, as crianças estão com medo de sair do assentamento para ir à escola, segundo outro assentado, Cícero José da Silva. Foi uma criança de sete anos que viu o crime, cometido supostamente por dois homens, por volta das 6h40, e correu para contar aos moradores. Quando o genro de José Cândido, Antônio José dos Santos, 32, encontrou o sogro, ele já estava morto. ?Não houve precisão de socorrer?.O medo também está presente nos outros 10 assentamentos existentes em Tamandaré, de acordo com o vice-prefeito. Segundo ele, os maiores problemas são os desmatamentos, assaltos e roubos. Ele contou que no assentamento Cocal Grande, chegaram com um caminhão, deram tiros para cima e levaram os bichos que os assentados criavam. Ele reconhece a impotência da polícia, devido aos poucos recursos e homens. ?Aqui se conta com três policiais?, afirmou. Com isso, o medo aumenta e os moradores se calam diante da violência. ?São poucos os que denunciam e falam o que acontece?. A ouvidora agrária do Incra no Estado, Elisabete Rafael, reforçou que a violência é uma constante na zona da mata sul. ?Esta morte é apenas uma entre outras, é preciso que as autoridades tomem ciência do que acontece?. Ela se preocupa com a falta de proteção dos assentados porque alguns deles ameaçam se armar para se defender. O presidente da associação de assentados do Brejo, Severino Barbosa Nazareno, por exemplo, anda armado. ?Sou ameaçado todos os dias?, frisou. ?Gente de fora passa por mim e diz ?eu estouro seus miolos?, tenho que me defender?.A ouvidora observou que há também conflitos internos, brigas entre assentados, muitas vezes provocados pelo uso excessivo de álcool. Mas os assentados garantem que a violência maior e mais assustadora vem de fora. Alguns assentados estão deixando a terra por insegurança?, disseErcílio Ferrari.Os assentados enfrentam também dificuldades para trabalhar a terra e sobreviver. Há quatro anos José Cândido lutava para aprovar um projeto agrícola do Mascatinho no Banco do Nordeste. Morreu sem conseguir. ?Cada vez eles pedem mais coisas, mesmo não se tendo mais pendências?, afirmouJosé Olímpio da Silva. O Mascatinho não tem energia elétrica e os assentadosplantam roça de subsistência. Ao deixar o assentamento, ontem, José Cândido ia mais uma vez tentar financiamento no Banco do Nordeste, no Recife. Ele deixou sete filhos.A delegada de Tamandaré, Ana Patrícia Guedes Alcoforado, abriu inquérito para investigar o crime. Não há pistas dos autores. Pela manhã, depois que o MST divulgou a morte de José Cândido, a Polícia Militar recebeu um reforço de 11 homens que foram deslocados para o município.

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