Medo da violência é maior em São Paulo, Salvador e Porto Alegre

A população das cidades de São Paulo, Salvador e Porto Alegre são as que mais têm medo da violência. O ranking do medo foi medido por uma pesquisa inédita da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que ouviu 4.430 pessoas em todo o Brasil, entre 13 e 17 de novembro.Numa escala que varia de zero a 100, as três cidades atingiram 62 pontos contra 48 da média nacional. Praticamente no mesmo nível estão Fortaleza, Curitiba e Belo Horizonte, com 61, e Recife, com 60. O Rio aparece logo depois, com 56, nível também considerado muito alto.Das nove capitais pesquisadas, Vitória é a que está em melhor posição, com 53 pontos. Em cadauma dessas cidades, 300 pessoas foram ouvidas.As regiões com mais medo são a Sudeste (51) e a Centro-Oeste/Norte, unidas para apesquisa pela baixa densidade populacional (50).O Sul teve 47 e o Nordeste tem menos medo, 43. Como esta é a primeira pesquisa desse tipo, não há termos de comparação e, portanto, não há como saber se o medo cresceu ou diminuiu. Tambémnão há equivalentes internacionais. ?Não podemos saber se é muito ou pouco. Sabemosque (a média nacional, 48) está um pouco abaixo da média possível (50). Considerando o Brasil como um todo, os brasileiros não têm muito medo?, disse o pesquisador Zairo Cheibub. A pesquisa será refeita a cada seis meses.Mesmo assim, foi possível chegar a algumas conclusões. Uma delas é que variáveis individuais, como idade, escolaridade e cor não influenciam no índice domedo. A exceção é o sexo dos entrevistados. Em todos os locais pesquisados, asmulheres sentem mais medo. A média nacional feminina é 50, enquanto a masculina é46. No Rio, a diferença é maior: 58 e 53, respectivamente.?O medo é um fenômeno social complexo e variado, mas independe de características individuais?, afirmou o pesquisador. Em todo o País, circular por bairros desconhecidos é percebido comouma das situações mais arriscadas.Outra conclusão é de que o medo cresce nas cidades maiores. Enquanto nas cidadescom 30 mil habitantes a média é de 35 pontos, nas que têm mais de 130 mil habitantes sobe para 56. Naquelas com mais de 800 mil pessoas, o índice chega a 59.Morar perto ou em favelas e em bairros pobres também aumenta o medo. Outro fator que influenciaé o uso de transportes públicos. Nacionalmente, aqueles que nunca usam esses meios de transportes apresentaram média 44. Já os que usam uma vez por semana ficaram acima da média nacional, com 49 pontos. O valor chega a 54 para os que os usamtodos os dias.No Rio, a situação é diferente. O medo atinge indiferenciadamente quem mora ou nãoperto de favelas. O mesmo vale para os transportes públicos. ?O medo é democráticono Rio?, disse o pesquisador Alberto Carlos de Almeida.Se no Brasil, o maior medo é o de ter a residência arrombada, no Rio o temor máximo é o de ser baleado. São Paulo, disse ele, segue um padrão próximo ao carioca. Os dados paulistanos serão divulgados nesta terça-feira pela FGV, em São Paulo.A posição do Rio entre as capitais provocou surpresa entre os pesquisadores. O medomenor do que o de cidades como Curitiba, segundo eles, explica-se pelo fato de a população carioca já conviver com altos índices de criminalidade há décadas. ?É como se tivéssemos entrado no piloto automático?, diz Almeida.O índice do medo acompanha a percepção do aumento da criminalidade. Na capital fluminense, 84% dosentrevistados disseram que a violência cresceu no último ano. ?Uma coisa que já é muitoalta é difícil aumentar?, disse Almeida. Em São Paulo, o índice passa de 90%. No Brasil,é de 94%.Para os pesquisadores, o aumento da percepção do medo cria um círculo vicioso. ?Aspessoas perdem a confiança e deixam de circular pelos espaços públicos. O impactodo medo também reduz a colaboração com a polícia. O resultado é que é mais difícilcombater o crime. Os bandidos tomam conta da rua?, afirmou Almeida.O pesquisador confere à imprensa um papel importante. ?Quanto mais notícia decrimes a pessoa lê, mais medo tem.? Para ele, no geral, a qualidade de vida dapopulação brasileira é muito ruim. ?O papel básico do Estado não está sendo cumprido.O normal, o ideal é você se sentir seguro andando na rua.?Os pesquisadores acreditam que a partir da pesquisa da FGV políticas públicas de segurança mais adequadas poderão ser desenvolvidas.

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