Medidas de estímulo à indústria 'ajudam', mas não atacam 'raiz do problema'

Para economistas, falta ao governo derrubar outros obstáculos que reduzem a competitividade do produto brasileiro.

BBC Brasil, BBC

03 de abril de 2012 | 14h48

As novas medidas do plano de estímulo à economia, anunciadas pelo governo nesta terça-feira, ajudam, mas não resolvem os problemas de competitividade da indústria brasileira. A opinião é a dos economistas ouvidos pela BBC Brasil.

Entre as principais medidas divulgadas pelo governo, está a desoneração da folha de pagamento com o fim da contribuição patronal de 20% para 15 setores industriais, que será substituída por uma nova taxa de 1% a 2,5% sobre o faturamento das empresas.

"As medidas vêm em boa hora, mas ainda falta muito por fazer", diz Samy Dana, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.

"O Brasil ainda tem uma elevada carga tributária (em torno de 36% do PIB), além de gravíssimos gargalos logísticos, como uma infra-estrutura deficiente, o que diminui a competitividade da nossa indústria", afirma.

Os setores beneficiados foram o têxtil, confecções, couro e calçados, móveis, plásticos, material elétrico, auto-peças, ônibus, setor naval, setor aéreo, bens de capital mecânicos, hotéis, tecnologia da informação, call centers e design house.

Para os economistas, entretanto, o benefício deveria ser mais amplo, abrangendo também outros setores.

"O Brasil tem um mau hábito de eleger campeões em determinados setores. Isso não é bom, pois cria um ambiente de competitividade artificial", argumenta Ari Francisco de Araújo Júnior, professor de economia do Ibmec/MG.

Dos 15 setores afetados pela medida, quatro (confecções, couro e calçados,tecnologia da informação e call center) já pagam contribuição previdenciária de 1,5% ou 2,5% sobre o faturamento desde o início do ano.

Com esse alívio na folha de pagamento, a renúncia fiscal será de 7,72 bilhões reais por ano, sendo 4,9 bilhões somente em 2012, já que as medidas só entram em vigor em julho.

Objetivo

A estratégia do governo é reverter a desaceleração da atividade industrial, que, embora tenha aumentado 1,3% em fevereiro na comparação com janeiro desse ano, ainda acumula queda de 3,4% nos dois primeiros meses desse ano em relação ao primeiro bimestre de 2011, segundo dados divulgados também nesta terça-feira pelo IBGE.

No acumulado dos últimos doze meses - de março de 2011 a fevereiro de 2012, a produção já acumula recuo de 1%.

Na comparação com fevereiro de 2011, no entanto, a indústria registrou queda de 3,9%, a sexta taxa negativa consecutiva neste tipo de comparação, com o mesmo período do ano anterior.

Riscos

Desde que lançou o plano Brasil Maior, em agosto do ano passado, o governo brasileiro vem tomando várias medidas para estimular a economia, focadas, principalmente, em impedir o desaquecimento da indústria.

Para isso, tem atacado em duas frentes: de um lado, tenta conter a valorização do real, taxando a entrada de recursos financeiros de curto prazo e, mais recentemente, operações de derivativos cambiais, a partir do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF); por outro, tenta frear as importações, através da revisão do acordo automotivo com o México ou da elevação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros importados.

O problema, segundo os especialistas, é que essas investidas do governo, sob a alegação de proteger o mercado interno, acabam tendo um "viés protecionista".

Assim, em um cenário de demanda em alta com menos oferta de produtos disponível, os preços tendem a subir, impactando a inflação, que, no ano passado, registrou alta de 6,5%, o teto da meta estabelecida pelo governo. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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