Médicos pedem cautela na fertilização in vitro

Novas tecnologias na medicina normalmente resultam de extensas pesquisas e testes clínicos com animais e seres humanos, que podem levar anos, ou décadas, até que uma técnica seja provada segura. No caso de algumas técnicas de reprodução humana em laboratório, entretanto, a tecnologia passou a perna na ciência. Em especial a injeção intracitoplasmática (ICSI), na qual um espermatozóide é injetado com uma agulha no óvulo, desenvolvida no início dos anos 90. "Esta é uma das poucas instâncias em que um procedimento clínico foi colocado em prática antes da realização da pesquisa básica. Ou seja, uma total inversão do processo científico convencional", disse ao Estado o especialista Richard Schultz, do Departamento de Biologia da Universidade da Pennsylvania. Schultz é o autor principal de um artigo publicado ontem na revista Science, no qual faz uma revisão dos benefícios e riscos associados às tecnologias de fertilização in vitro. Ao mesmo tempo em que aplaude os avanços obtidos nas clínicas de fertilidade, possibilitando a milhões de casais estéreis a oportunidade de ter filhos, ele levanta dúvidas sobre a segurança das técnicas mais modernas. "A maior preocupação com a ICSI é que ela ignora quase todos os mecanismos de seleção natural que o espermatozóide encontra ao longo da reprodução natural", escreve Schultz, junto com a colega Carmem Williams, da mesma universidade. Em vez de milhões de espermatozóides lutando por uma vaga no óvulo, apenas um, selecionado em laboratório, é injetado diretamente dentro dele. A técnica funciona, sem dúvida - a taxa de sucesso pode chegar a 40% -, mas os efeitos a longo prazo dessa intervenção humana ainda são pouco conhecidos. A primeira criança nascida por ICSI, na Bélgica, em 1993, ainda tem menos de 10 anos. Estudos publicados nos últimos meses indicam que a ocorrência de malformações congênitas e anomalias neurológicas, assim como nascimentos com baixo peso, é maior em bebês gerados por fertilização in vitro. Pesquisadores do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, onde a regulamentação das clínicas de fertilidade é das mais rigorosas, concluíram que 9% das crianças nascidas por reprodução em laboratório têm malformações, comparado ao índice normal, de 4.2%. Pesquisas comparativas realizadas na Alemanha chegaram a conclusões bem semelhantes. Cautela - Os resultados não significam que a ICSI deva ser proibida, mas que precisa ser melhor pesquisada, e que os pacientes devem ser informados sobre os possíveis riscos, dizem os pesquisadores. Segundo o urologista Jorge Hallak, especialista em reprodução humana, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a ICSI é recomendada apenas para os casos mais graves de infertilidade, que não podem ser tratados com medicamentos ou microcirurgia. "Os casais que sofrem de infertilidade devem passar por uma avaliação rigorosa para descobrir a causa do problema e a melhor maneira de tratá-lo, como em qualquer outra área da medicina", disse. "A reprodução assistida é aplicação de tecnologia, não trata a doença. Mas se houver o diagnóstico correto, muitas vezes pode haver uma cura específica." De acordo com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, até 90% dos casos de infertilidade podem ser tratados com terapia convencional, muito mais segura e barata. Segundo os pesquisadores da Pensilvânia, entretanto, a ICSI é aplicada em 60% a 80% dos casos em clínicas de algumas áreas metropolitanas nos EUA. Para o Brasil, não há números oficiais.

Agencia Estado,

22 de junho de 2002 | 03h03

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