Médicos comemoram experiência com células-tronco no coração

Os pesquisadores do hospital Pró-Cardíaco (zona sul do Rio) anunciaram nesta segunda-feira os resultados do primeiro experimento feito na América Latina com células-tronco para doenças cardíacas. Em três de quatro pacientes tratados, o implante das células conseguiu regenerar a capacidade de funcionamento do coração e ainda recriar artérias para combater a insuficiência do órgão.O experimento foi realizado em dezembro do ano passado por médicos do Pró-Cardíaco em convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e pelo Instituto do Coração do Texas (EUA).Os médicos retiraram células-troco da medula óssea dos pacientes e reintroduziram em vários pontos deficientes do coração por meio de um catéter (aplicado na região da virilha). O objetivo era testar a capacidade de a célula-tronco - leva esse nome por causa de sua capacidade de, como um tronco de árvore, se expandir e se transformar em células de diferentes tecidos - de recriar artérias e recuperar o coração dos pacientes, como já havia funcionado em camundongos.Segundo os médicos, dos quatro pacientes, dois conseguiram uma recuperação de 100%, um teve melhora de 60% e apenas um deles não conseguiu resultado significativo. As células conseguiram agir positivamente em três áreas: melhoraram a chegada do sangue ao coração, aumentaram a capacidade de contração do órgão e ainda reduziram o volume cardíaco - geralmente aumentado pela doença."Ainda são poucos pacientes, mas tivemos um ótimo resultado. Por isso, é impossível não estar otimista. Estamos no caminho certo", disse Hans Dohmann, médico do Pró-Cardíaco e um dos coordenadores do estudo.Os pacientes também estão felizes. O aposentado Nelson Rodrigues dos Santos Aguia, de 68 anos, fez o implante no dia 16 de dezembro passado e afirma que em fevereiro já começou a se sentir diferente. "Antes eu não conseguia andar 400 metros. Agora, dou caminhadas de 4 km em dias alternados e parei de sentir falta de ar. Me sinto muito diferente", disse.Nelson tem sete pontes de safena e seu estado era muito grave quando decidiu ser voluntário no experimento. "Minha área isquêmica sumiu. Estou muito feliz." O tratamento também teve sucesso com outro paciente. José Carlos Barbosa, de 54 anos, teve que se aposentar por causa de sua insuficiência cardíaca e esperava na fila por um transplante de coração. "Eu não vivia, só sofria. Era falta de ar e dor no peito todo dia. Não conseguia nem me locomover", disse. Barbosa fez o implante no dia 21 de dezembro e, segundo ele, uma semana depois os resultados já surgiram. "Pensei que fosse algo psicológico, que eu estava me enganando, mas a verdade é as células-tronco funcionaram muito rapidamente em mim."Além dos quatro pacientes, os médicos realizaram o implante em outros seis doentes, mas os resultados desses ainda não estão prontos. Com o sucesso dessa primeira etapa, os pesquisadores pretendem ampliar o estudo e testar o método em pacientes menos graves. A tese dos médicos é que a capacidade de regeneração deve ser maior em pacientes que têm maiores áreas do coração ainda vivas. "Essa é uma hipótese razoável que queremos testar no futuro", disse Radovan Burojevic, professor de histologia da UFRJ e responsável por várias pesquisas com células-tronco.Outra hipótese que poderá ser testada no futuro é a de fazer novos implantes nos doentes já tratados, mas que não conseguiram recuperação de toda a área infartada. "Não há nada que impeça novos implantes. Ao contrário, tudo indica que eles vão continuar funcionando", afirmou Radovan.

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