Médicos católicos reforçam condenação total ao aborto

Jovens profissionais de saúde tiveram dúvidas hoje, no segundo dia do 3º Congresso Latino-americano de Médicos Católicos, sobre a possibilidade de aborto de bebês anencéfalos - sem cérebro - quando a má-formação é descoberta ainda durante a gravidez. A resposta: nem nesses casos a retirada do bebê é aceita pela Igreja Católica. O ponto de vista médico católico é de que, enquanto há respiração e batimento cardíaco, não existe morte cerebral. Os bebês anencéfalos, depois de nascerem, podem viver de poucas horas a algumas semanas. Representante do Vaticano no encontro, e porta-voz da mensagem do papa João Paulo II sobre ciência e saúde, o monsenhor Javier Lozado Barragán afirmou: "Onde há o mistério da vida existe a presença de Deus. O bebê anencéfalo que nasce é batizando e abre a porta para a vida eterna." O médico e padre Aníbal Gil Lopes lembrou que o bebê anencéfalo não só deve nascer, como ser alimentado e receber atenção e amor. "Essa criança terá um valor para seus pais e outras pessoas que sequer podemos avaliar." A psiquiatra peruana Maíta Garcia Flores, professora da Universidade São Paulo, em Lima, na palestra Aborto de Risco de Vida Materno, classificou de "menu da morte" as várias opções médicas existentes para pôr fim à gravidez. A médica referiu-se à "armadilha das Nações Unidas", que não aceitam oficialmente o aborto, mas não impedem que obstetras aprendam técnicas como da sucção ou aspiração, usada em 85% dos casos de aborto. Maíta Flores criticou ainda o "vocabulário maquiado" usado pelos grupos de defesa do aborto, que o chamam de "interrupção da gravidez", e que apresentam como ?método antiimplantatório? o uso da chamada pílula do dia seguinte. Segundo a psiquiatra, este recurso tem 25% de chances de insucesso, levando à má formação do feto, que acaba se desenvolvendo. A condenação do aborto em qualquer situação é consenso absoluto entre os médicos católicos que encerram, com missa na Catedral Metropolitana, os dois congressos simultâneos, latino-americano e brasileiro. AidsO atendimento aos doentes de aids foi outro tema do segundo dia do congresso. A discordância do uso de preservativo como meio principal da prevenção da doença não impede os católicos de dedicarem trabalho aos portadores do vírus HIV. Uma das palestras foi sobre o trabalho realizado pelo Ambulatório da Providência, da Arquidiocese do Rio de Janeiro. A Igreja Católica recomenda a abstinência sexual para evitar a transmissão da doença. O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Luiz Roberto Castello Branco, apresentou aos colegas latino-americanos os números estimados de portadores do HIV no Brasil, no ano passado: 597.443 pessoas infectadas, com idade média entre 15 e 49 anos, e incidência de dois homens para cada mulher. Em 67% dos casos, informou, os doentes foram infectados pela via sexual. De 15.200 pacientes cadastrados no Ambulatório da Providência do Rio, 1.013 são soropositivos. Entre os pacientes atendidos pelos médicos católicos, o pesquisador disse não ser possível garantir que baixou para zero o número de infectados que deixaram de ter relações sexuais. "Mas reduziu muito", assegurou.O cardeal arcebispo do Rio, dom Eugenio Sales, citou a importância do amparo espiritual no tratamento dos pacientes com aids. "Não se pergunta a crença que seguem. Apresentamos a doutrina de Jesus Cristo para quem desejar", lembrou dom Eugenio. Um dos temas dos debates de ontem foi o que os médicos católicos chamam de cura espiritual, em que o paciente reencontra vontade de viver.

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