Médicos alertam para risco de nova epidemia de febre amarela

A febre amarela pode voltar a circular nas cidades brasileiras em breve e causar grandes epidemias no País, alertaram hoje especialistas reunidos no III Congresso de Clínica Médica do Estado do Rio. Segundo eles, a ameaça cresceu nos últimos anos e é conseqüência direta da globalização e da maior circulação das pessoas pelo mundo. "Vivemos a possibilidade concreta de reurbanizar a febre amarela no Brasil", observou Marcos Boulos, professor-titular de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), durante o simpósio A Reurbanização das Doenças Tropicais.O Brasil só registra casos de febre amarela silvestre - a forma que circula entre os macacos. Por ano, o País tem algumas centenas de casos e vacina milhões de pessoas, mas a doença afeta apenas pessoas que moram nas zonas de mata. Há grandes preocupações de que o vírus que provoca a doença (amarílico) se espalhe pelas grandes cidades, já que o mosquito transmissor (o Aedes aegypti, o mesmo da dengue) está muito disseminado nas cidades. Em teoria, bastaria apenas que uma pessoa contaminada circulasse pelas cidades para que o vírus se espalhasse, da mesma forma como ocorre com o vírus da dengue.Em sua apresentação, Boulos ressaltou que é surpreendente que o Brasil não tenha tido ainda surtos de febre amarela urbana, uma vez que as cidades são muito infestadas pelo Aedes. "A própria Organização Mundial de Saúde, em um encontro recente, ressaltou que não entendia por que ainda não ocorriam epidemias de febre amarela nas cidades brasileiras", disse.Uma hipótese levantada pelo professor é que talvez a doença não tenha chegado aos centros urbanos por incompetência do tipo do Aedes que circula no País em transmitir o vírus da febre amarela. Esse tipo de mosquito seria um bom transmissor do vírus da dengue, mas por razões genéticas teria dificuldades de carregar o amarílico. "Talvez esta cepa do mosquito não seja muito eficiente para transmitir o vírus, mas nenhum estudo foi feito e ninguém tem certeza disso", contou o professor. Mesmo que essa hipótese esteja certa e seja comprovada por pesquisas, o médico afirma que não é motivo para esquecer o problema, já que nada impede que, no futuro próximo, o Aedes aegypti se adapte melhor ao vírus da febre amarela e comece a transmitir mais a doença. Neste caso, a globalização seria a grande aliada do mosquito na criação de epidemias. "Hoje cerca de 1 bilhão de pessoas viajam por ano, 50 milhões para países pobres, onde existe a maioria das doenças. E, quando elas viajam, elas têm que lembrar que estão levando microorganismos, bactérias e vírus para fora ou dentro de seus países."É por isso que, lembraram os especialistas, a única forma de conter o aumento das doenças como a dengue e a febre amarela em países pobres é reduzir a infestação dos mosquitos. "Sabemos que é muito difícil erradicar o Aedes, mas é possível controlar. E só um controle sério vai evitar epidemias, como a que tivemos no Rio este ano", concluiu Boulos. O presidente do congresso, o médico Luiz José de Souza, também defendeu a maior seriedade no controle do mosquito. "Não podemos pensar que é impossível erradicar. Pelo menos temos que tentar."

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