Médico não descarta uso de cocaína por Cassia Eller

Quando chegou à Casa de Saúde Santa Maria, às 11 horas desábado, a cantora Cássia Eller tinha inflamação nas veias do braço esquerdo e obstrução da artéria do mesmo braço. Embora falasse coisas desconexas, ela disse aos médicos que tinha tomado o calmante Lexotan, mas não especificou quantos comprimidos ingeriu. Muito agitada, Cássia teve de ser contida por quatro médicos e enfermeiras, pois temia-se que ela caísse da cama do hospital. Havia também ferimentos na cabeça, nosbraços e nas pernas. Os machucados eram tantos, que chegou-se a providenciar uma tomografia, para verificar se houve alguma lesão no cérebro. Mas Cássia morreu antes do exame. Este quadro foi relatado pelos médicos da Santa Maria ao cardiologistaRafael Leite Luna que, como a Agência Estado revelou ontem, foi chamado à casa de saúde pela família da Cássia, às 17 horas de sábado, duas horas, portanto, antes da morte da cantora. Luna voltou a dizer que, pela idade da cantora, não havia possibilidade de um enfarto de causa natural e a cogitar a possibilidade de overdose. "É possível que tenhahavido uma combinação, mas não sei que droga era", disse Luna, ao chegar à 10ª Delegacia de Polícia (Botafogo), onde prestou depoimento. Luna cogita uma espécie de coquetel de drogas, álcool ecalmantes. O médico afirmou que a família de Cássia não ficou satisfeita com o procedimento da clínica e achou que as providências foram insuficientes. Luna, porém, defendeu a atuação dos colegas. "Ela foi muito bem atendida. Não há o que fazer para evitar uma parada cardíaca, que não era esperada pelos médicos", afirmou o cardiologista."Quando cheguei ao hospital, às 17h30, estava esse drama. Falei dez minutos com os médicos e a família, vi o eletrocardiograma, que mostrava lesão grande na parede anterior e na parede inferior. Fui em seguida para o CTI. Quando entrei, o pessoal estava correndo para o leito dela. Era a segunda parada cardíaca", revelou o médico ontem.Segundo Luna, durante meia hora, as massagens para ressucitação funcionavam, mas em dois ou três minutos, o coração voltava a apresentar arritmia. Cássia era medicada com muitas drogas, como adrenalina e xilocaína. "Às 18h30, a coisa abrandou. Providenciou-se uma radiografia para o pulmão e um ecocardiograma para ver o que havia de tecido sadio no coração. Quando começaram a armar os exames, o coração voltou a parar", continua Luna, relatando desta vez os últimos momentos de vida de Cássia.Os médicos da Santa Maria contaram a Rafael Luna que a primeira impressão era de intoxicação alcoólica e, por isso, ficaram muito apreensivos quando houve a primeira parada cardíaca, às 15 horas, pois não é uma conseqüência do excesso de álcool. "Quando uma pessoa usa cocaína, o coração fica lento e o dela estava rápido, o que complicoumuito o atendimento inicial. Temos muita experiência com cocaína, porque atendemos muitos jovens nesse estado. O coração é irrigado porartérias, que são obstruídas com o uso de cocaína e por isso fica lento. Outra drogas podem deixar o coração acelerado. Ela falava em um remédio para dormir e, quando soube, pedi que alguém fosse à casa dela para ver na cartela quantos tinham sido tomado. Mas, como ela morreu, não houve mais interesse nessa informação", contou o médico,ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.Segundo Luna, a combinação de calmante e álcool não causaria lesões no coração, o que aumenta a suspeita de uso de outro tipo de droga muito pesada. Só o resultado da necrópsia, diz o médico, com a análise de partes do fígado, será capaz de apontar tudo o que foi ingerido.O cardiologista afirmou que os ferimentos de Cássia não pareciam conseqüëncia de alguma briga, mas resultado de uma queda. O médico suspeita também que a própria cantora possa ter batido com a cabeça intencionalmente, pois, segundo ele, havia muitos hematomas por baixo do cabelo. "Com 39 anos, não se tem um enfarto sem que haja uma doença bem definida. Os quadros de enfarto nessa idade acontecem com quem é diabétido, ou muito gordo, ou tem um histórico de pressão alta. O quadro é mais de drogas, embora não se saiba de que tipo", disse RafaelLuna.

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