MEC doa, mas alunos não levam livros para casa

Mal-entendidos, problemas dedivulgação, conceitos arraigados. Tudo isso acabou impedindo quemuitos dos livros infanto-juvenis distribuídos pelo Ministérioda Educação (MEC) fossem doados aos alunos do ensino fundamentalpúblico. O programa, lançado em março, pretendia incentivar ohábito da leitura em casa. Os livros não saíram das escolas. "Com as obras, montamos os cantinhos da leitura,pequenas bibliotecas em todas as salas de aula", diz avice-diretora da escola estadual Júlio de Faria e Souza, na zonanorte da capital, Marilena Fenaroli. Apesar da iniciativalouvável, a idéia do programa Literatura em Minha Casa era a deque o livro passasse a fazer parte do cotidiano do estudante ede seus parentes. Segundo ela, só três meses depois o MEC avisou qualdeveria ser o destino das obras. "Não dava mais para tirá-lasde todas as classes e dizer que pertenciam só a algunsalunos." Um dos motivos da confusão é o fato de os livros teremsido planejados apenas para crianças das 4.ª e 5.ª séries. Issoporque, segundo o ministério, é nessa fase que começam a terfluência na leitura e podem cultivar o hábito. Mas todas asescolas têm alunos de outras séries. Portanto, no entendimentodos diretores, a quantidade de livros parecia insuficiente paratodos os estudantes da unidade e isso criava um mal-estar. Na escola Visconde de Taunay, a solução encontrada foidar uma coleção a cada professor - de 1.ª a 4.ª série - para queeles pudessem trabalhar com seus alunos. Os 700 estudantes daescola foram divididos em grupos, assim todos poderiam tercontato com os novos livros. Além disso, a coordenadora SueliMoreta só soube pela reportagem que as obras deveriam serdoadas. O programa tem 30 títulos, divididos em seis coleções decinco livros cada. "Desde o início do ano, mandamos váriosofícios avisando o procedimento correto", diz Mônica Messenberg secretária-executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento daEducação (FNDE), responsável pela compra e distribuição doslivros no MEC. Mas, segundo ela, na caixa em que foram mandadasas obras para as escolas não foi possível colocar nenhumainstrução.ResistênciaPesquisas da FNDE já confirmam que muitasescolas não doaram os livros às crianças. "O problema é aresistência cultural. Há diretores que dizem que não têm comoexplicar aos outros alunos que os livros são apenas para a 4.ª e5.ª séries e por isso não fazem a doação", afirma Mônica."Outros acham que os livros serão estragados se forem dados àscrianças." A mãe de Janaína Cruz, de 11 anos, guardou com cuidado oprimeiro livro da filha em uma caixa. "Um dia quero ler para omeu sobrinho", conta a menina, que estuda na escola Prof. JoãoBoemer Jardim. Só depois de os alunos lerem "A Formiguinha e aNeve" e responderem a um questionário, a professora deixou quea obra fosse levada definitivamente para casa. Menos mal. Estemês, Janaína e seus colegas estão às voltas com o livro depoesias, que inclui Mário Quintana e Olavo Bilac. "Se tivessedado todos de uma vez, poderiam ter sido colocados debaixo dacama e esquecidos", justifica a professora Nadir de Souza. Na sala ao lado, os livros também estão sendotrabalhados aos poucos, mas a professora pede para que os alunosdevolvam depois de terminarem a leitura. E as históriasilustradas de Ruth Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Luis FernandoVeríssimo, entre outros, voltam para o armário da classe. "Noano que vem, podemos não receber mais livros e os novos alunosficariam sem nada", diz Regina Ribeiro. A própria etiqueta da distribuidora, impressa na capa decada obra, confundiu os diretores das escolas. Ela diz: FNDE -Biblioteca da Escola. Com menos destaque, está o nome doprograma Literatura em Minha Casa. Em cinco escolas visitadas,só uma tinha feito o procedimento correto. O MEC iniciou uma campanha na Voz do Brasil paraexplicar que os 60 milhões de livros enviados a 139 mil escolasdo País têm de ser doados. Também pretende fazer propaganda natelevisão. Em novembro, chega às escolas uma nova remessa delivros (para os alunos da 4.ª série, em 2003). Pais de criançasque não receberam seus cinco livros devem ligar para0800-616161.

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