''Me sinto viúva de um fantasma''

Hoje com 70 anos, morando em Maceió, Elza Miranda reviveu, em entrevista ao Estado, por telefone, os momentos dramáticos da busca pelo marido, Jayme Amorim de Miranda. "Foram dias, meses, anos esperando, pois não podia acreditar na conversa ridícula de que ele fugira para a Rússia", disse. Jayme, descreve, era sistemático e cumpridor dos deveres. "Dizia a hora exata de voltar e jamais falhava."Em 4 de fevereiro de 1975, o comunista pediu à mulher que preparasse um jantar especial. Membro do comitê central do PCB, Jayme vivia clandestino na capital carioca com a mulher e quatro filhos. Naquele dia, saiu cedo para se encontrar com um despachante que lhe entregaria documentos falsificados para ir ao exterior. "O contato havia caído e a polícia do regime manteve o encontro para prendê-lo." Nunca mais ele foi visto pela família.Começou ali a peregrinação de Elza pelos porões da repressão. O livro Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, relata que Jayme foi visto no Dops de São Paulo e morto sob tortura em Itapevi. O corpo teria sido jogado no mar."Me sinto até hoje viúva de um fantasma", diz. Elza tem esperanças de que o projeto Memórias Reveladas, com o qual o governo promete trazer à luz os arquivos secretos da ditadura, dê um fim às incertezas. "Precisamos saber tudo, o governo deve essa satisfação às famílias."

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