‘Me sinto injustiçada. Não vou mais colaborar’

Doleira que ajudou a Polícia Federal na investigação da Operação Satiagraha foi condenada a quatro anos de prisão

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo,

18 de janeiro de 2011 | 23h01

SÃO PAULO - Quando ela abre a boca faz tremer o submundo do colarinho branco, causa alvoroço no mercado paralelo de moedas estrangeiras e tira o sono da legião de empresários e políticos que se beneficiaram de esquemas de lavagem de dinheiro e remessas ilegais de valores para paraísos fiscais.

 

Tem sido assim há três anos, desde que a doleira Claudine Spiero foi capturada pela Polícia Federal e decidiu contar o que sabe - assumiu o papel de delatora, a maior de todas, gesto que consolidou em mais de cem depoimentos secretos à Justiça e à PF.

 

Claudine Spiero sabe muito dos subterrâneos do câmbio ilícito e da fuga de capitais. Um mundo que frequentou. A delação premiada é um benefício legal que pode ser condedido a quem colaborar com investigação e apontar nomes de cúmplices ou cabeças de organizações criminosas.

 

Nas ações sobre crimes contra o sistema financeiro e contra a ordem tributária, da alçada da Justiça Federal, poucos são os que se dispõem a falar. Claudine Spiero fala desde 2007.N inguém fez tantas delações à Justiça Federal quanto Claudine Spiero.

 

Agora ela se diz arrependida. "Amargamente arrependida", acentua. "Nesse País não vale colaborar com a Justiça", diz Claudine, desapontada com a condenação que lhe foi imposta judicialmente: quatro anos de prisão, convertida em pena restritiva de direitos e prestação de serviços comunitários.

 

Avalia exacerbada a sanção a que foi submetida. "Eu me sinto injustiçada. Já sabia que Justiça não existe no Brasil. Não vou mais colaborar. Eu não aguento mais ir na PF. Fui explorada durante esses anos todos. Quero saber quem já foi condenado por lavagem."

 

Claudine Spiero, de 55 anos, foi alvo da Operação Suíça que reuniu provas sobre evasão de divisas em nome de clientes de três bancos sediados em Genebra com representação no Brasil.

 

Claudine teria sido o elo de pessoas jurídicas e executivos com aquelas instituições financeiras. Em 6 de novembro de 2007 caiu na malha da PF.

 

Ficou 45 dias na prisão federal. Em busca do perdão judicial fez delação premiada. Seus relatos são o pilar de operações da PF e guia prático do Ministério Público Federal. Informações confiáveis apresentou, de modo geral acompanhadas de documentos e arquivos de computador. Inquéritos bem sucedidos tiveram sua marca.

 

Na Satiagraha suas revelações deram base a ordem judicial para buscas na residência e escritórios de seis envolvidos, entre eles um antigo lobista de empreiteira - em poder desse alvo, em dezembro de 2008, a PF recolheu uma coleção de pen drives contendo e-mails que citam autoridades com prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal.

 

A sra. foi condenada a 4 anos, mas não ficará presa. O que a deixa tão indignada?

 

Eu esperava o perdão judicial pelo grau de colaboração que prestei. No mínimo uma pena mais baixa. Vou recorrer. Poucos nesse País foram condenados por lavagem de dinheiro. No meu caso o Ministério Público nem pediu minha condenação por lavagem. Para outros doleiros o máximo é 2 anos e oito meses. Mandaram meu nome para o Coaf (Conselho de Control de Atividades Financeiras) sem saber a consequência que isso pode me trazer. Nunca mais eu posso sair do Brasil. Se sair eles vão me prender.

 

Arrependida?

 

Muito. Uma coisa de que me arrependo é ter feito delação premiada. Eu vou dizer honestamente. A PF não sabia nada de esquema bancário internacional. Nada. Pode escrever com propriedade. Fazem uma orgia jurídica baseada na inteligência da PF. Mas que inteligência é essa? Tem juiz especializado em processos por lavagem que até três anos atrás não sabia nem o que era isso exatamente. Muita coisa eu expliquei nas audiências. A delação premiada prevê até absolvição. Não reconheço os crimes a mim imputados, formação de quadrilha, lavagem. Quadrilha é quando pessoas estão associadas com um mesmo objetivo. Nunca pertenci a quadrilha nenhuma. A Justiça não me concedeu nada. Fica o alerta: quem delata não tem benefício. O Ministério Público ofereceu o acordo, reconheceu plenamente a minha colaboração e pediu uma pena muito mais baixa, só por câmbio ilegal.

 

o que foi a Operação Suíça?

 

Eles tinham uma denúncia muito frágil, quase vazia, sobre transferências. A operação começou ilegalmente, por interceptação telefônica. Não tinham nenhuma prova, não havia fundamento nem para decretar grampo. Eu era gerente independente do Credit Suisse. Dei consistência à investigação. Abri o organograma, contei como atuavam, o papel de cada executivo, o tipo de documento que utilizavam. Ajudei a fazer a perícia de toda essa documentação. Na Satiagraha dei todos os esclarecimentos. Minha vida acabou. Não posso me livrar do que fiz no passado, mas com certeza a dimensão do meu crime não é essa.

 

Quando colaborou pela última vez?

 

No dia 21 de dezembro fiz meu último depoimento na PF. Auxiliei em dois inquéritos . Um sobre valores depositados na Suíça. O outro caso é sobre movimentação que o Coaf identificou de um empresário de quase 80 anos. Eu cansei de falar. Eles têm que buscar outros caminhos, estão vendo lavagem de dinheiro até em transferência nacional. Estão procurando fantasmas. Qualquer coisa eles me chamam. Chega.

 

Você enriqueceu como doleira?

 

Eu tenho um apartamento e um carro. Meus únicos bens. Eu não tenho patrimônio oculto. Eu era a menor doleira do mercado. O que supostamente ganhei no câmbio paguei na minha defesa e na multa da delação premiada, R$ 500 mil. Fui alvo de uma covardia de outro doleiro que fez delação e não apresentou prova. Eu me calei, inicialmente. Depois, achei que deveria fazer o papel de delatora. Eu tenho palavra. Estou morando na Bahia, abri um negócio na área de confecções. Preciso viver.

 

Como iniciou sua atividade no câmbio paralelo?

 

Eu tinha um escritório em Pinheiros, era independente. Eu recebia comissão de um banco suíço, não por câmbio. Eu era um relacionamento para eles com pessoas jurídicas e físicas. Eu não fazia câmbio para o banco. A polícia veio atrás de mim sem nenhuma prova. Fui doleira durante quatro anos, sou ré confessa. Eu não tenho mais motivos para esperar nada de bom da Justiça. A delação não vale a pena porque você não vai receber nenhum benefício. Perdi tudo, fiquei dois anos com as contas bloqueadas. Invadiram a casa de minha mãe, uma mulher de 88 anos que vivia com uma enfermeira. Fizeram busca e apreensão, puseram a porta abaixo. Não bateram, arrombaram. Minha decepção é essa exatamente. Confiei na Justiça. Meu filho tem razão. Ele diz que o IPTU no cemitério é mais barato.

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