McVeigh lamenta mortes, mas não se arrepende

Timothy James McVeigh, 33 anos, o ex-soldado condecorado da Guerra do Golfo responsável pelo maior ato de terrorismo da história dos Estados Unidos, pediu às autoridades que não divulguem o que comeu em sua última refeição antes de sua execução por injeção, marcada para esta segunda-feira, na prisão federal de Terre Haute, Indiana, às 8 horas (horário de Brasília).Ele também não quer que seus advogados revelem o destino final de suas cinzas. Numa série de cartas publicadas hoje pelo jornal de sua terra natal, o Bufallo News, no Estado de Nova York, McVeigh escreveu que considerou a possibilidade de pedir que elas fossem espalhadas no monumento em memória das 168 vítimas, entre elas 19 crianças, do atentado a caminhão-bomba que cometeu no dia 19 de abril de 1995 contra o edifício federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma City. Mas disse que mudou de idéia depois de decidir que isso seria "demasiadamente vingativo demais, cru e frio". McVeigh disse também que não teme a execução. Agnóstico, afirmou que "improvisará e adaptará" se existir vida depois da morte. "Se for para o inferno, terei muita companhia", escreveu.McVeigh negou a autoria do ataque durante o julgamento que o condenou à morte, em 1997. Mas confessou ser o responsável numa série de entrevistas, nas quais justificou o atentado como um ato da guerra pessoal que declarou contra o governo depois das desastrosas ações da polícia federal americana contra um integrante de uma milícia, em Rudy Ridge, Idaho, e os membros de um culto messiânico em Waco Texas. O atentando de Oklahoma aconteceu no dia do segundo anivesário da tragédia de Waco, na qual morreram mais de 80 membros da seita. McVeigh disse que espera ser lembrado como um um combatente contra a opressão do governo, na mesma categoria de John Brown, um abolicionista que foi condenado por traição e executado na forca em 1959, um ano antes da eclosão da Guerra Civil americana.Nas cartas publicadas hoje McVeigh disse que o ataque foi uma "tática legítima" mas mostrou, pela primeira vez, uma ponta de remorso."Lamento que as pessoas tenham tido que perder suas vidas, mas essa é a natureza do monstro", escreveu ele, referindo-se não a si próprio, mas a sua fantasiosa guerra solitária contra o governo. Em mais de 70 horas de entrevistas aos jornalistas Dan Herbeck e Lou Michel, do Bufallo News, que serviram de base para o livro "American Terrorist", McVeigh havia calssificado a morte das dezenove criaças como "dano colateral".Para os sobreviventes do atentado e parentes das vítimas, a declaração publicada veio tarde demais e não serviu de consolo. Poucos esperam que McVeigh peça perdão pelo que fez se usar o seu direito de condenado a fazer uma declaração final antes de receber os três químicos que o matarão.Trezentos deles acompanharão a execução em Oklahoma, por um circuito fechado de televisão especialmente autorizado pelo ministério da Justiça. Dez outros, escolhidos por sorteio, presenciarão o macabro ritual em Terre Haute, em salas separadas de dez jornalistas e quatro convidados de McVeigh, que incluem seus dois advogados. Um de seus convidados, o escritor Gore Vidal, que está escrevendo um livro sobre McVeigh, avisou que não poderá comparecer. Vidal havia confirmado sua presença na primeira data prevista para a execução, em maio, que acabou prorrogada por 26 dias depois que o FBI revelou que não havia entregue à justiça todos os documentos que tinha em seu poder sobre o caso.Mais de 1.500 jornalistas do mundo inteiro estão em Terre Haute. A polícia reservou espaços separados perto da prisão para as vigílias organizadas por grupos favoráveis e contrários à execução. Um clima surrealista começou a envolver o evento hoje com a instalação dos quiosques dos vendores de sanduíches e de bebidas que pretendem ganhar alguns trocados com a movimentação.McVeigh será o primeiro condenado submetido à punição máxima do "homicídio legal", o nome técnico da pena de morte, pela Justiça federal americana em 38 anos. O último, morreu enforcado. Por causa do adiamento, a execução correrá num momento inconveniente para o presidente George W. Bush: no dia em que ele parte para sua primeira viagem à Europa, onde a pena capital é considerada uma barbárie indigna de países civilizados e o presidente americana chega com a fama de recordista da modalidade: em seus seis anos como goverrnador do Texas, Bush autorizou 152 execuções. Mais de setecentas pessoas foram legalmente mortas nos EUA desde que a Suprema Corte reafirmou a legalidade da pena capital, anulando uma decisão que suspendera sua aplicação três anos antes.A execução de McVeigh não ajudou a causa da minoria que batalha pela anulação da pena de morte nos EUA. Oito em dez americanos disseram que apóiam sua aplicação neste caso, quando menos de 7 em cada dez pessoas manifestam-se a favor quando perguntadas sobre o conceito da pena capital. Mas isso não significa que o assunto não esteja em debate. A descoberta, nos últimos anos, de 82 inocentes entre as mais de 3.500 condenados à morte nas cadeias do país, graças a testes de material genético, deu força a uma campanha em favor de uma moratória nas execuções. Segundo pesquisa da CNN, a idéia tem hoje o apoio de uma maioria de 59% da população. De acordo com a Campanha pela Abolição da Pena de Morte, a maioria dos condenados à pena capital é composta por pobres - nove em cada dez são representados por advogados datives em seus julgamentos - e por negros e latinos. Somados, representam 25% da população. Nos casos pendentes na justiça federal, a proporção alcança 80%.O fato de McVeigh ser branco, filho de um família da classe media cujos pais se divorciaram, como ocorre em metade dos casamentos nos EUA, e a brutalidade do crime que cometeu incomoda especialmente os americanos. Nas primeiras horas depois do atentado, autoridades e até jornalistas especularam sobre a origem dos "terroristas estrangeiros" que teriam perpetrado o ataque ao país. Algumas pessoas com nome e aparência árabe que haviam visitado Oklahoma antes do ataque chegaram a ser interrogadas pela polícia. e país. "O que dá medo é que ele (McVeigh) era tão americano", disse Samuel Gross, um professor de direito da Universidade de Michigan especializado em execuções. "Ele não era um demente, como Ted Kaczynski (o Unabomber), levava uma vida ordinária de um ex-soldado que voltou para casa", disse Gross. "Nada em McVeigh o dinstinguiriam (das outras pessoas) num picnic numa igreja na Cidade de Oklahoma".

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