Material de pesquisa sobre Tiê-sangue é incinerado no Rio

A Vigilância Sanitária apreendeu e queimou amostras de sangue do pássaro brasileiro Tiê-sangue, trazidas do exterior pela pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Denise Nogueira. O material biológico era parte da pesquisa do curso de doutorado que a pesquisadora dividiu entre a Uerj e a Universidade de Sheffield (Inglaterra), mas, alegando falta de licença do Ministério da Agricultura, a Vigilância apreendeu o material no aeroporto no dia 1º e incinerou cinco dias depois.As amostras de sangue do pássaro foram levadas para a Inglaterra no ano passado. Denise ganhou uma bolsa no Brasil para, na universidade inglesa, seqüenciar e estudar o DNA do Tiê-sangue - um pássaro genuinamente brasileiro da espécie Ramphocelus bresilius. A parte final do doutorado seria feita aqui no Brasil. "Vamos perder todo esse trabalho que, no futuro, poderia ser reunido a outros e, com isso, entender melhor as espécies brasileiras", lamenta Denise. A Vigilância Sanitária informa que a pesquisadora não tinha, como manda a lei, a autorização de exportação e importação de material biológico que deveria ter sido expedida pelo ministério antes da saída do Brasil. Sem essa licença, o procedimento é a incineração imediata do material. A direção da vigilância não quis dar entrevistas e também não explicou se não existem exceções em casos como esse, em que houve desperdício de conhecimento científico e de dinheiro público -a pesquisa de Denise custou às agências financiadores brasileiras pelo menos R$ 100 mil entre os cursos no Brasil e na Inglaterra.A versão da pesquisadora da Uerj sobre a papelada necessária para exportar o sangue dos pássaros é outra. Ela afirma que, quando saiu do Brasil, foi orientada a pegar uma autorização do Ibama. No órgão, ela recebeu uma licença e nada lhe foi dito sobre a necessidade de outra autorização do ministério. Denise não teve problemas de sair do Brasil e de entrar na Inglaterra com as amostras. Na volta, ao declarar o material, a vigilância exigiu a licença do ministério. Como ela não tinha, deu um prazo para que ela entrasse em contato com o órgão, mas a incineração ocorreu antes mesmo que ela pudesse recorrer. "Não entendi nada porque primeiro eles me disseram que eu conseguiria a licença, mas depois fiquei sabendo que era tarde demais e que eles já tinham queimado tudo", conta Denise.A pesquisa da doutoranda sobre o Tiê-sangue teria prosseguimento. Numa segunda etapa, Denise pretendia comparar o DNA desses pássaros que tinham sido encontrados no Rio com o de pássaros da mesma espécie que vivem em outras regiões do País. "Agora, vai ser difícil continuar porque teremos que refazer tudo."

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