Mateiro adoece antes de ir ao local da clareira

Derrame impediu Zé da Rita de mostrar acesso à área usada para matar guerrilheiros

, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Foi em abril de 2008 que o oficial da reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, deu a primeira indicação de que abriria realmente seu arquivo da Guerrilha do Araguaia (1972-1975), importante acervo particular sobre o período. No meio de uma entrevista ao Estado, Curió orientou um assessor a chamar e a apresentar à reportagem o ex-guia Zé da Rita. O mateiro, naquele momento, era um personagem desconhecido do Araguaia.A presença de Zé da Rita na entrevista tinha um caráter simbólico. Pesquisadores acreditavam que o major, político que sempre deu entrevistas, blefava. Em poucos minutos, o homem que o Estado tentava localizar desde 2003, chegou a um pequeno sítio de Curió no Sul do Pará.Zé da Rita, que usava sandália de dedo e um boné, chegou com jeito desconfiado. Sentou numa cadeira ao lado do agente da reserva do Exército e Curió começou o diálogo.- Zé, como vamos quebrar aquele juramento? - O juramento?!O mateiro baixou a cabeça, demonstrando incômodo com a presença da reportagem.- Calma, são de confiança.- Sei.- Você lembra do local certo?A pergunta de Curió, referia-se à Clareira do Cabo Rosa, uma área na floresta usada por oficiais para executar guerrilheiros.- Era tudo mata, hoje não é.- Naquele tempo era matão, hoje é abertura. Qual é o rumo hoje, Zé? - Clareira do Cabo Rosa, na beira da Grota do Cajueiro. Um grotão que hoje joga no Saranzal, perto da Grota dos Caboclos. Pra sair nesse lugar tem de ir pela OP-2. Você entra e sai no grotão. - Se fosse a selva daquela época era mais fácil. Amanhã mesmo a gente chegaria lá. Tinha árvore para indicar o riacho, detalhou Curió.- Também não andei mais lá.- Zé, vamos descobrir isso. - Eu topo. Você sabe como eu sou. Nunca falei nada.Dias depois, Zé da Rita sofreu um derrame e a viagem foi adiada. O próprio Curió começou a demonstrar menos interesse em abrir o arquivo. Com as indicações dadas pelo mateiro, o Estado procurou o local na última terça-feira.O córrego do Cajueiro fica na mesma área onde o Cabo Rosa foi morto pelos guerrilheiros em 1972, mas deságua no Rio Gameleira. Zé da Rita disse que era no Saranzal, região bem mais distante. Não é possível precisar o local exato da clareira. Ao menos para se chegar ao Cajueiro é preciso caminhar uma hora numa mata ciliar. Parte da vegetação nativa ainda está de pé. O Cajueiro e o Gameleira, neste ponto, têm águas limpas.

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