Marta se demite, constrange o Planalto e prepara terreno para eleição de 2016

Marta se demite, constrange o Planalto e prepara terreno para eleição de 2016

Ministra da Cultura deixa cargo com carta na qual cobra ‘resgate de confiança e credibilidade’ do governo na área econômica; petista dá sinais de que poderá sair do partido para disputar Prefeitura de São Paulo contra Haddad daqui a dois anos

Vera Rosa, Débora Bergamasco e Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2014 | 11h57

Em rota de colisão com a presidente Dilma Rousseff, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, pediu nesta terça-feira, 11, demissão do cargo em uma carta de tom duro, na qual cobra do governo federal o resgate de "confiança e credibilidade" na economia com a escolha da próxima equipe da Fazenda. Magoada com o PT, Marta demarcou o seu espaço, saiu atirando e deu o primeiro passo para pavimentar sua intenção de disputar a Prefeitura de São Paulo, em 2016, mesmo se for por outro partido.

A carta de demissão de Marta, com críticas à condução do governo, em especial na economia, pegou o Palácio de Planalto de surpresa, principalmente porque foi entregue quando Dilma estava no exterior. Foi um gesto calculado da ex-prefeita de São Paulo, que ficou dois anos e dois meses no comando da Cultura e agora reassumirá sua cadeira no Senado.

"Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso País", escreveu Marta em carta antecipada pelo blog de Sonia Racy, no portal do Estadão. "Isto é o que hoje o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera."

Sem saber. Dilma só soube da carta de Marta quando desembarcou em Doha, no Catar, onde parou antes de seguir viagem para Brisbane, na Austrália, com o objetivo de participar da reunião de Cúpula do G-20, que será realizada no sábado e domingo. O tom beligerante da despedida da ministra surpreendeu a presidente e seus auxiliares, irritando ainda mais o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Para a vaga de Marta são cotados o presidente do Instituto Brasileiro de Museus, Angelo Oswaldo, e o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira.

Marta é a segunda ministra demissionária que faz críticas públicas a Dilma. Na segunda, Gilberto Carvalho (Secretaria Geral), também próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que faltou diálogo em seu primeiro mandato. Carvalho ainda não saiu, mas não deve ficar no governo.

No Palácio do Planalto, o gesto da senadora foi interpretado como um movimento planejado por ela para deixar o PT e se filiar ao PMDB, caso o seu partido a impeça de disputar uma prévia com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para a escolha no nome que concorrerá em 2016. A cúpula do PT, Dilma e Lula defendem a reeleição de Haddad, apesar dos problemas enfrentados pelo prefeito.

Isolada no partido, desprestigiada com Dilma e proibida de concorrer em 2012, ela agora quer voltar à Prefeitura.

Dias depois do 2.º turno da eleição presidencial, Marta disse a Lula que está disposta a disputar prévias com Haddad. Além de não se comprometer com Marta, Lula alertou a então ministra que Haddad tem direito a pleitear a reeleição.

Aos seus poucos interlocutores, ela disse que se não puder concorrer pelo PT, poderá se filiar ao PMDB. Marido de Marta, o empresário Márcio Toledo, ex-presidente do Jockey Clube de São Paulo, tem ótimo trânsito no PMDB e é amigo do vice-presidente Michel Temer.

A ida para o PMDB, no entanto, seria o "plano B" de Marta, que já avisou a aliados que não pretende tomar uma decisão antes de outubro do ano que vem, prazo final das filiações para a disputa das eleições de 2016.

Nesta terça, horas depois da manobra de Marta, o PT reagiu com uma nota assinada por cinco vereadores da corrente Novo Rumo antecipando o apoio à reeleição de Haddad. Por outro lado, preocupados com a possível saída da senadora do PT, algumas lideranças foram escaladas para afagá-la. O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, ligado a Lula, enviou uma mensagem agradecendo as parcerias do Ministério da Cultura com o município.

A situação de Marta começou a ficar insustentável depois que ela promoveu três jantares com empresários e artistas, no início do ano, que ficaram conhecidos como ponta de lança do movimento "Volta, Lula". Dilma ficou contrariada e não pediu sua ajuda na campanha eleitoral. Marta deu o troco e se recusou a pedir votos na periferia de São Paulo, onde tem grande aceitação. O PT teve o pior desempenho da história em São Paulo. Em setembro, Marta chegou a ser expulsa de um carro de som onde estava Dilma, no Largo 13 de Maio, pelo presidente do PT, Rui Falcão.

Na semana passada, ela esteve duas vezes com Dilma, no Palácio da Alvorada. Pediu para sair, mas a presidente solicitou a ela que ficasse mais um pouco, para não precipitar a mudança na equipe. Marta aceitou, mas mudou de ideia nesta semana.

Tudo o que sabemos sobre:
Marta SuplicydemissãoSonia Racy

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.