Marinho já arma base para PT-2011

São Bernardo abrigará esquema político de Lula fora do Planalto

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

Miriam Belchior é uma executiva influente no Palácio do Planalto. Joga no time dos assessores mais próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é subchefe da Casa Civil e ajuda a tocar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - uma das principais apostas do atual governo. Nos últimos dias, porém, ela trocou seu endereço de trabalho em Brasília por outro, muito mais modesto, na região metropolitana de São Paulo: o escritório político do prefeito eleito de São Bernardo do Campo, o ex-ministro e ex-líder sindical Luiz Marinho.Ela chefia a equipe de transição do governo municipal. Segundo Marinho, foi uma gentileza: em seu período de férias, em vez de descansar, ela resolveu ajudar os petistas da região onde atuou antes de ir para o Planalto. Miriam foi a primeira mulher do prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002, e já prestou serviços a administrações petistas.Parece singelo. Mas o significado da presença dela na equipe vai além disso: confirma a enorme importância que Lula tem dado à política de São Bernardo - a praça do ABC Paulista que abrigou as batalhas grevistas do final dos 70, que foi berço do PT e que deverá abrigar o presidente e sua base política quando ele deixar o Planalto, em janeiro de 2011 (provavelmente planejando retornar dali a quatro anos).Os sinais estão por toda parte. Na eleição deste ano Lula esteve quatro vezes na cidade fazendo campanha a favor do amigo Marinho. Até admitiu que estava mais empenhado naquela disputa do que na de São Paulo, maior colégio eleitoral do País.Foi tão intensa a participação do primeiro mandatário da República que o candidato derrotado em outubro, o deputado estadual Orlando Morando (PSDB), costuma dizer que não disputou a cadeira de prefeito com Marinho, mas sim com Lula, um dos políticos mais populares da história do País. "Eu perdi a eleição para o presidente da República", diz ele.Parece cantilena de derrotado? Sim. Mas vale lembrar que Morando, de 34 anos, conseguiu 46% do total de votos úteis no segundo turno. Trata-se de feito notável, considerando o empenho de Lula e o poder de fogo do adversário, que mobilizou recursos financeiros jamais vistos em eleições locais.O que empurrou Morando não foi seu partido, que é fraco na região, mas sim o forte índice de rejeição que o PT enfrenta. Os petistas estavam afastados do poder em São Bernardo desde 1990, quando o prefeito Maurício Soares, amigo de Lula e petista histórico rompeu com o partido, por não suportar mais as interferências em sua administração.Para se entender melhor o tamanho da dificuldade que os petistas enfrentam, aqui vai uma porcentagem: 22,8%. Essa foi a fatia do total de votos úteis que coube ao candidato petista em 2004 e que o abateu ainda no vôo do primeiro turno. Deve-se registrar, porém, que o candidato - o deputado e também ex-líder sindical Vicentinho - não contou, nem de longe, com o empenho demonstrado por Lula na campanha deste ano.De acordo com o Ibope, quanto maior o nível salarial e o grau de escolaridade dos eleitores, menor a simpatia pelo PT. Em pesquisa eleitoral realizada às vésperas do segundo turno, constatou-se que, entre eleitores que ganham até 2 salários mínimos, 73% votariam em Marinho. No andar de cima, entre os recebem mais de 5 salários, a preferência caía para 47%.Para vencer essa resistência, Marinho costurou uma amplíssima aliança partidária. Conseguiu até atrair o ex-prefeito Soares, que ainda é uma importante força política local.Ele também mobilizou as forças sindicais da região. Seu tesoureiro de campanha, entre outros assessores, saiu do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Na festa da vitória, na noite do dia 26 de outubro, era impressionante a quantidade de líderes sindicais presentes.O PT venceu em quatro das seis zonas eleitorais da cidade. Foi derrotado em áreas de maior influência da classe média alta.Agora, com a ajuda de Miriam e do Planalto, Marinho prepara-se para enfrentar riscos e desafios. Vai governar a cidade em um período de crise, com a possibilidade de uma onda de desemprego na indústria automobilística - uma das locomotivos econômicas da cidade. Vai ter que acomodar no poder os dez partidos que o ajudaram a se eleger, além do PT. Vai ter que conviver com o poder sindical - que é apontado por alguns especialistas como umas principais causas da resistência ao PT na cidade. Por fim, vai ter que encontrar meios para aumentar seu cacife eleitoral, porque seus partidários em São Bernardo (e no Planalto) já o apontam como pré-candidato para as eleições para governador, em 2010.Uma das preocupações de seu partido, para que ele consiga deslanchar, é com a mídia regional - que o teria hostilizado na campanha. A notícia boa para o lado petista é que o jornal semanal ABCD Maior, que apóia entusiasticamente o prefeito eleito e seu partido, irá se tornar diário. O jornal pertence a um ex-assessor de Marinho, mas seus atuais assessores garantem que nem o ex-ministro nem o partido têm participação no projeto. Segundo Marinho, existem boas chances de se reduzir os efeitos da crise econômica com as medidas já adotadas pelo presidente Lula para beneficiar o setor produtivo. O pior, para ele, nesse momento, é adotar atitudes pessimistas. "Se ajudarmos a propagandear que a crise é grave, podemos aumentar o seu tamanho", afirma.Quanto às dificuldades do PT na cidade, é categórico: "Quem só vê a resistência, faz uma leitura errada da situação. A cidade é conservadora, mas o presidente Lula nunca perdeu uma eleição aqui."E a resistência de algumas regiões da cidade, que deram mais votos ao concorrente? "Nem Barack Obama ganhou em todas as cidades", diz ele.Do outro lado, pronto para unir as forças de oposição, Morando comenta: "Só espero que São Bernardo não se transforme numa nova Ribeirão Preto", referindo-se à serie de escândalos que teriam ocorrido na cidade quando era administrada pelo petista Antonio Palocci.Para o advogado Tito Costa,que governou a cidade na época das greves e também já foi muito próximo de Lula, o risco é outro: "Vejo com apreensão a junção entre sindicalismo e poder político, que já está ocorrendo em São Bernardo."

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