Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Marina quer ajudar a construir ‘alternativa à polarização’ entre Lula e Bolsonaro

Para ela, “é um erro histórico” voltar a insistir na priorização do nome de pessoas para a disputa antes de se definir “o que queremos para o Brasil”

Entrevista com

Marina Silva, ex-ministra e líder da Rede Sustentabilidade

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 15h23

Depois de disputar três eleições presidenciais, a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) mudou o foco de sua atenção para 2022. Em vez de preparar uma quarta candidatura, Marina diz, em entrevista ao Estadão, que está empenhada em colaborar para a construção de uma candidatura de terceira via, que seja uma alternativa aos nomes do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para ela, “é um erro histórico” voltar a insistir na priorização do nome de pessoas para a disputa antes de se definir “o que queremos para o Brasil”.

“Eu estou empenhada em ajudar a construir e viabilizar um projeto que coloque em primeiro lugar o que nós queremos para o Brasil em lugar da priorização do nome de pessoas. Porque esse é um erro histórico que vem sendo cometido. Infelizmente, após tantos anos no poder de PT e PSDB, a semente que brotou foi o Bolsonaro.”

Ela reconhece que o tempo de construção dessa candidatura já deveria ter se iniciado. “Esse projeto já deveria estar posto há muito tempo. Infelizmente, os atores que têm capacidade de fazer isso preferem, digamos assim, a velha estratégia da polarização. Acho que uma alternativa à polarização precisa ocupar esse lugar de reconexão com a sociedade pela sua proposta”, afirma Marina.

A ex-senadora não economiza críticas ao governo Bolsonaro: “Nós temos uma situação de completa desestabilização. É um governo que não governa para construir. Só governa para destruir”.

Justamente por isso, a líder da Rede admite que, em nome da defesa da democracia, estará alinhada contra sua reeleição, no caso de não haver êxito na construção de uma candidatura fora da polarização.

“Eu trabalho para que a gente possa construir uma alternativa à polarização. Mas com a clareza de que a democracia é um balizador fundamental para esse debate. É claro que, nesse momento, nessa situação que o Brasil está vivendo, o Bolsonaro é o vetor de todas essas mazelas. Temos que ter a clareza dessas coisas. Mas quando você também estreita os caminhos em torno de escolher o que já está posto, não é escolha. A escolha pressupõe um terceiro. Quando esse terceiro ainda não existe, a gente tem de trabalhar para construir. É isso que eu estou fazendo. Numa clareza que a democracia é um valor que não vai ser relativizado e que o Bolsonaro é uma ameaça a esse valor.” 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Depois de disputar as três últimas eleições presidenciais, como a senhora pretende se posicionar na disputa de 2022?

Estou empenhada em ajudar a construir e viabilizar um projeto que coloque em primeiro lugar o que nós queremos para o Brasil, em lugar da priorização do nome de pessoas. Porque esse é um erro histórico que vem sendo cometido. Infelizmente, após tantos anos no poder de PT e PSDB, a semente que brotou foi o Bolsonaro. Esses erros que foram praticados, inclusive em função de questões éticas, que causaram na população essa decepção e desilusão, fizeram com que germinasse o Bolsonaro. Se esse processo se repete agora, ele aprofundará esse prejuízo para o processo de reconstrução do País nesse momento tão difícil. De crise política, de crise institucional. De crise sem precedentes na saúde pública.

Qual é a sua avaliação sobre o peso do momento do País sobre esse quadro político?

São mais de 14 milhões de desempregados. Mais de 19 milhões passando fome no nosso País. Então, esse é o momento de fazer o debate, de reconectar as pessoas com as possibilidades para o País. A gente enfrenta o problema das desigualdades sociais. Precisamos ver como a gente vai se integrar ao debate que está sendo feito no mundo. Com uma recuperação econômica que considere o enfrentamento das mudanças climáticas. Ver como a gente se integra ao debate da disrupção tecnológica, que agrava o problema do desemprego em função de milhões e milhões de pessoas que estão sendo expulsas do mercado de trabalho. Todos esses debates precisam estar colocados. E depois a gente verifica qual é o melhor nome. É deste debate que eu participo e quero que ele seja aprofundado.

No Brasil, há o costume de se lançar os candidatos e depois se constrói o projeto que embasa a candidatura…

É claro que eu sei respeitar aqueles que estão se colocando. Mas, nesse momento, o que é necessário, no meu entendimento, é debater como fortalecer a aderência no sentido social político brasileiro à defesa das instituições e da democracia. Depois, fazer com que o País possa sair dessa grave crise econômica. Aonde a pandemia faz com que mais e mais riquezas sejam concentradas nas mãos daqueles que já têm, e mais e mais pobrezas sejam espraiadas sobre aqueles que já viviam com dificuldades e que agora estão em situação de miséria. 

E como a senhora acha que é possível fazer isso?

Precisamos enfrentar a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento para que o Brasil não continue sendo um pária ambiental. E possa, a partir dos seus grandes ativos, ter isso como a base dos novos investimentos que o mundo quer fazer e precisa fazer. Aqui não é o lugar do problema. Aqui é o lugar da solução. Se as pessoas querem uma agricultura que possa ser certificada, rastreada, aqui é onde se tem possibilidade de fazer isso. Se as pessoas querem produzir materiais com energia limpa, renovável e segura, aqui é o lugar, porque aqui a gente pode ter uma matriz energética 100% limpa. Com a biomassa, o vento, o sol, a hidroeletricidade. Com o problema que estamos enfrentando hoje de falta de chuvas e de reservatórios secos e se continuar a destruição da Amazônia, isso vai ser fundamental para saber como vai ser o desenvolvimento da política econômica do nosso País. Então, esse debate precisa ser feito. É em cima dele que a gente vai se reconectar com a sociedade. Até porque, é a partir dessa nova economia que se terá o novo ciclo de prosperidade, de geração de emprego, de uma maior base tecnológica.

Até quando a senhora acha que esse processo de reflexão deve ser feito antes da definição de um candidato que represente esse debate?

Eu acho que esse projeto já deveria estar posto há muito tempo. Infelizmente, os atores que têm a capacidade de fazer isso preferem, digamos assim, a velha estratégia da polarização. E eu acho que uma alternativa à polarização precisa ocupar esse lugar de reconexão com a sociedade pela sua proposta. E não, simplesmente, em função do esgarçamento político ainda maior do que aquele que tem sido feito ao longo desses anos e, principalmente, a partir de 2014, quando ele começou a ser aprofundado com essa estratégia da política com base na desconstrução, da qual o Bolsonaro hoje é hors concours.

Até agora, ainda existe dificuldade de visualizar como essa alternativa poderá se materializar…

O tempo deveria estar a nosso favor. Infelizmente, até agora, não é assim que está colocado. Mas uma coisa que é importante, no momento de crise, é você saber que não pode resolver a questão do presidente da República de forma exclusivista. Até por uma boa dose de humildade e de respeito pela própria realidade que se impõe. Porque é muito mais fácil uma alternativa com base no diálogo de diferentes forças políticas, da esquerda, do centro-esquerda, do centro democrático. O problema no Brasil é que a gente fala do centro, mas não existe um centro ideologicamente posicionado. O que nós temos no Brasil são conservadores e reacionários que quando lhes é oportuno e conveniente se dizem de centro.

A construção dessa terceira via não terá de passar pelos políticos de centro e pelo próprio Centrão?

Acho que muitos analistas reconhecem que quando a ideia de terceira via teve mais força foi em 2010 e 2014. Nas minhas campanhas em 2010, junto com o Guilherme Leal (empresário da Natura) e 2014, junto com o Eduardo Campos, na qual infelizmente tivemos aquela tragédia (Campos morreu num acidente aéreo e Marina assumiu a cabeça da chapa). Hoje, esse lugar é ocupado por aqueles que ficam numa política pendular. Pendular para ver quem é o poder para estar junto ou quem é a expectativa de poder para migrar para aquele que for conveniente. Então, isso é um problema”.

Dá para sair desse problema?

Esse problema está se repetindo agora numa reforma política de conveniência. Porque a reforma política está sendo feita para ver o que é melhor para os partidos hegemônicos. Aliás, é um debate colocado de forma errada, tratando do que fortalece e enfraquece os partidos. Não é o que fortalece ou enfraquece os partidos. É o que fortalece a democracia. Trata-se de serem partidos programáticos, democráticos. Partidos que têm projeto de País. E essas mudanças que estão sendo propostas são feitas de conveniência e com o olho gordo do Centrão. Que quer mandar em todo e qualquer governo que assuma o poder naquela cadeira de presidente da República. Então, o centro no Brasil é um ponto distante ocupado pelo Centrão, que não tem cara, não tem rosto, não tem nome. Tem operadores, como tem agora o Arthur Lira. Não é um partido. É uma força difusa.

Como a senhora vê o papel do Centrão na política do País?

Eu acho que, no caso do Centrão, eles tentam jogar com um pé em cada canoa, com um jet ski no meio para sair a toda velocidade para acompanhar o poder. No caso, eles atuam para serem os operadores de qualquer um que seja vitorioso. Por isso, defendo um debate com diferentes setores da sociedade que trabalhe a ideia de uma política de longo prazo em vez da ideia de querer alongar o seu prazo na política. Por isso, acho que no debate da reforma política uma das questões que deveriam ser colocadas é o fim da reeleição. Esse é um debate que precisa ser feito. Porque a reeleição virou um problema para o Brasil. Todas as movimentações são feitas a partir disso. O Centrão estava com Fernando Henrique, estava com Lula e está agora com Bolsonaro. E a movimentação não é só com quem está no poder. É também com a expectativa do poder. Por isso, com o fim da reeleição viria um mandato de cinco anos, a partir da próxima eleição. O que for eleito em 2022 cumprirá mandato de quatro anos e, a partir daí, mandato de cinco anos sem reeleição. Nem para presidente, nem para governador, nem para prefeito. Porque hoje, com a reeleição, as pessoas não fazem o que é necessário em benefício do País. Fazem o que é necessário em benefício de seus projetos para se perpetuar no poder. Aí se quiser fazer vista grossa para a corrupção, se tiver de destinar verba pública para projetos que ligam nada com coisa nenhuma, em prejuízo de investimentos estratégicos em educação, saúde, saneamento, projetos de melhoria da qualidade de vida das pessoas de forma estruturada, é isso que as pessoas vão fazer. A reeleição na América Latina sempre foi um problema. E agora, mais do que nunca, há necessidade de fazer o debate do fim da reeleição. Numa democracia, a alternância de poder é legítima e necessária.

Como a senhora vê o governo Bolsonaro?

É um governo que não governa para construir. Só governa para destruir. É um estado de completa insolvência. Não governa e não quer governar. Você tem um presidente da República, que em plena pandemia, com essas condições todas que a gente tem, se ocupa o tempo todo em atacar o Supremo, atacar as instituições democráticas, agredir os jornalistas, promover aglomerações, desqualificar o trabalho dos governadores, e ficar sendo garoto-propaganda de remédio que em vez de ajudar pode agravar os problemas de saúde do País. A única coisa que dá a impressão é de um governo que não quer trabalhar. Só quer ficar contra estudo, contra Educação, contra tudo que é decente e civilizatório nesse País.

A senhora acha que existe risco de o presidente tentar algum tipo de golpe para se manter no poder?

A gente tem de separar o que é o desejo do presidente Bolsonaro. O que deseja Bolsonaro é que possa ter uma situação em que ele vá até às últimas consequências. E isso ele deixa claro o tempo todo. Ele vai flertando com essa possibilidade, com essa atitude de mostrar que tem a força, que tem o poder das armas. É parte desse arsenal de tentativa e erro nessa agenda nefasta. A gente tem de separar isso. E o outro é o que a realidade permite, onde a sociedade brasileira resiste a qualquer tipo de golpe. As instituições têm agido vigorosamente contra toda e qualquer tentativa de intimidação e nessas semanas isso têm até se intensificado. Então, essa separação precisa ser feita.

A senhora deixou claro que não apoiará Bolsonaro e nenhuma hipótese. Poderá apoiar Lula, caso essa seja a alternativa contra a reeleição do presidente?

Temos de trabalhar com a perspectiva da política como um processo dinâmico, vivo, pró-ativo, reativo, livre. Porque essa ideia de você não dar às pessoas a possibilidade da opção também estreita os caminhos da nossa democracia. É preciso que a gente trabalhe com a perspectiva de escolhas. Eu trabalho para que a gente possa construir uma alternativa à polarização. Mas com a clareza de que a democracia é um balizador fundamental para esse debate. É claro que, nesse momento, nessa situação que o Brasil está vivendo, Bolsonaro é o vetor de todas essas mazelas. Temos que ter a clareza dessas coisas. Mas quando você também estreita os caminhos em torno de escolher o que já está posto, não é escolha. A escolha pressupõe um terceiro. Quando esse terceiro ainda não existe, a gente tem de trabalhar para construir. É isso que eu estou fazendo. Numa clareza que a democracia é um valor que não vai ser relativizado e que o Bolsonaro é uma ameaça a esse valor. 

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