Jojser Patrício/AE
Jojser Patrício/AE

Marina Silva nega que tenha defendido o criacionismo

Senadora propôs plebiscito sobre o aborto e disse que nunca foi radicalmente contra os transgênicos

Clarissa Oliveira, de O Estado de S. Paulo,

22 de setembro de 2009 | 07h37

Num sinal de que vai trabalhar para se desvencilhar da imagem conservadora nas eleições de 2010, a senadora Marina Silva (PV-AC) negou na segunda-feira, 21, que tenha defendido publicamente o criacionismo, propôs a realização de um plebiscito sobre a descriminalização do aborto e afirmou que nunca teve uma posição radicalmente contrária aos transgênicos. Evangélica, Marina é missionária da Assembleia de Deus e acumula em seu currículo batalhas como o combate à Lei de Biossegurança, que regulamentou o uso de transgênicos, e pesquisas com células-tronco no Brasil.

 

Apesar de desviar sucessivamente do rótulo de candidata na entrevista, Marina falou durante todo o programa como quem está decidida a concorrer em 2010. E reagiu às sucessivas perguntas sobre temas relacionados à sua religiosidade. "Quando eu fazia campanha para o presidente Lula, eu era escalada para tentar desmistificar a ideia de que ele, se ganhasse, seria contra a família, a igreja. Agora, estou tendo de me explicar porque tenho espiritualidade", queixou-se Marina. "As pessoas terem espiritualidade não significa que sejam obscurantistas."

 

Marina se viu em meio à polêmica sobre o criacionismo após participar de um seminário sobre o tema, em 2008. Na ocasião, a então ministra teria dito que é favorável a que a versão bíblica sobre a criação do mundo seja ensinada nas escolas ao lado do evolucionismo de Charles Darwin. Ao participar na segunda do programa Roda Viva, da TV Cultura, Marina afirmou que jamais fez essa defesa e disse ter havido um "equívoco". "Colocaram esse debate na minha boca", afirmou.

 

A senadora disse que foi mal compreendida após ser questionada sobre o fato de escolas adventistas incluírem no currículo o estudo do criacionismo. Ela destacou que, ao falar especificamente dessas instituições, declarou que os jovens poderiam fazer a escolha que julgarem mais sensata. "Eu nunca defendi o criacionismo", continuou a senadora. "Eu acredito em Deus e que Deus criou todas as coisas. Só isso."

 

Marina, que entre amigos não esconde sua posição contrária ao aborto, evitou polemizar sobre o assunto. Admitiu que esse debate envolve questões de saúde pública, mas disse que a complexidade do tema demanda uma discussão mais aprofundada. "Eu acho que deveria haver sim um plebiscito", prosseguiu. "Não posso simplesmente dizer que sou contra ou a favor." Marina acrescentou que não tem a visão dos que "simplesmente ficam satanizando" mulheres que recorrem a essa prática.

 

Por outro lado, a senadora colocou-se contra a descriminalização da maconha. Mas, ao comentar seu relacionamento com o colega de partido Fernando Gabeira (PV-RJ), que é favorável à tese, disse não condicionar suas alianças políticas a esse posicionamento. "Sou contrária à descriminalização, inclusive conversei sobre isso com o Gabeira. Mas o fato de ter uma posição contrária não me impediu de fazer a campanha para ele no Rio."

 

Marina também procurou explicar o fato de ter votado contra a Lei de Biossegurança. No caso dos transgênicos, por exemplo, a ex-ministra disse que era a favor de que o Brasil adotasse um modelo que contemplasse tanto o uso de sementes transgênicas quanto convencionais. "Eu não era contra um modelo em que existissem transgênicos. Eu era a favor de um modelo de coexistência", afirmou. Ela argumentou que pesquisas recentes demonstram, por exemplo, que o efeito da seca na soja transgênica é maior do que nas sementes convencionais.

 

Reformulação do PV

 

Marina reconheceu que o PV tem arestas a polir rumo à disputa do ano que vem. "O PV não é um partido perfeito. Estamos em um processo de aperfeiçoamento", afirmou. Ela reafirmou que apenas definirá uma candidatura à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando a sigla passar por uma reformulação ideológica. "Estamos em processo de diálogo", ressaltou.

Desde o último dia 11, o PV discute a cartilha que deve nortear a atuação da sigla a partir do ano que vem. O comitê responsável pela definição do novo programa do partido busca definir uma identidade em prol do desenvolvimento sustentável e contrária ao fisiologismo. A previsão das lideranças do PV é de que o novo programa fique pronto no início do ano que vem.

Questionada sobre qual deve ser sua plataforma no ano que vem, Marina primeiro tergiversou: "Temos essa mania de antecipar as eleições e ainda tem muita água para correr debaixo dessa ponte." Contudo, ao ser perguntada sobre se apoiaria o eventual candidato do PSDB, o governador paulista José Serra, em um segundo turno nas eleições de 2010, Marina adotou retórica de candidata. "Então você está admitindo que não vou para o segundo turno?", perguntou ao entrevistador, enfática.

Em mais uma indicação de que será mesmo candidata, Marina antecipou que o PV já projeta um leque de apoios para as eleições. "Só articularemos apoios no ano que vem. Neste momento, são apenas projeções", afirmou.

 

(Com Gustavo Uribe, da Agência Estado)

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