Marina e a terceira onda

A primeira lhe chegou como quem vem do passado. Trouxe 20% de eleitores, com o mesmo perfil dos que haviam votado em Marina Silva em 2010. A segunda correu por sobre a primeira. Trouxe descontentes, anuladores e distraídos. Somados aos jovens e velhos protestantes, equipararam-na a Dilma Rousseff e seus petistas e bolsistas. Haverá uma terceira onda? O tsunami definitivo de petróleo, lama e votos? Não imediatamente.

José Roberto Toledo, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2014 | 02h01

Todas as pesquisas divulgadas e não divulgadas mostram que a segunda onda de Marina espumou. Tampouco há sinais de crescimento da candidata do PSB nos trackings telefônicos dos partidos. O motivo é simples: não há mais eleitores à toa.

Marina raspou o que havia em excesso de votos nulos, brancos e indecisos - só sobraram as proporções históricas e esperadas. Transformou o Pastor Everaldo (PSC) em nanico e levou a maioria dos nanicos de volta à taxa zero. Para voltar a crescer, Marina precisa obrigatoriamente tirar de Aécio Neves ou de Dilma.

A presidente encontrou seu bastião da resistência no eleitorado que se beneficia do Bolsa Família e nos petistas históricos e militantes. É bem mais difícil Marina seduzir esses eleitores de Dilma do que os que estavam sem candidato ou haviam nanicado. Sobra-lhe o eleitorado aecista.

O tucano está se segurando, por enquanto, nos 15%. São eleitores mais velhos, de renda mais alta, nível superior, brancos e católicos. Estão concentrados principalmente no Sudeste. São antipetistas, mas não são eleitores típicos de Marina. Só votariam nela no primeiro turno se tivessem a certeza de que Aécio não tem mais chance e de que o seu "voto útil" em Marina liquidaria logo a eleição e tiraria o PT do poder de vez.

Esse consenso ainda não se formou, porém. Apesar de ter precisado convocar entrevista para dizer que não iria renunciar, Aécio ainda se imagina no jogo. E está mais animado depois da última denúncia envolvendo a Petrobrás e meia dúzia de partidos.

Há a deduragem de um réu confesso (no Brasil, quanto mais suja a fonte, mais transparente ela quer parecer): nomes vazados; provas, nem tanto. Pouco importa a precisão na eleição. O que decanta, para o grosso da opinião pública, é mais um escândalo envolvendo políticos. É mais do mesmo. Só reforça a antipolítica e a despolitização que desgastou Dilma e submergiu Aécio.

Tanto faz o adjetivo: o maior escândalo, mensalão 2 (mensalão 3 seria mais apropriado, mas deixa estar), a mãe de todas as corrupções. Pode-se exagerar os superlativos até matar Joaquim Barbosa de inveja por ter julgado um caso, por comparação, menor. De tanto martelar que política é sinônimo de corrupção, grande parte dos eleitores acabou acreditando.

Quem é o símbolo da antipolítica na eleição presidencial de 2014? PT e PSDB é que não são. Difícil de imaginar que possam colher algum voto de mais um escândalo. Podem se acusar o quanto quiserem, só estarão pregando para convertidos. Se alguém pode crescer no tiroteio, é quem se vende e é comprado como "o novo".

O nome de Eduardo Campos apareceu na alcaguetagem, e logo: "A refinaria de Abreu e Lima custou bilhões, e 3% disso dá centenas de milhões de reais". Assim como o avião fantasma da campanha do PSB não colou em Marina, a refinaria não fica no Acre, mas em Pernambuco. Marina e Eduardo tinham pouco em comum, só o plano de se ejetarem do jato petista e tentarem alçar voos solos. "Providência divina" ou acaso, Marina não voou e voou. Alto.

Sem contratos na Petrobrás, Marina vai representar, de novo, o papel que mais lhe convém, o de injustiçada indignada. Já recitou as primeiras falas ao dizer que "qualquer acusação sobre uma pessoa que não está aqui para se defender pode ser uma grande injustiça". Talvez não seja o suficiente para iniciar uma terceira onda, mas vai provocar uma marolinha em Pernambuco.

Por ora, o "petrogate" segura Aécio. No fim, ajuda Marina.

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