Mares Guia pede afastamento e diz que acusação é 'injusta'

Ministro deixa Relações Institucionais após denúncia ao STF de que teria participado do mensalão mineiro

Leonencio Nossa,

22 de novembro de 2007 | 18h00

O Palácio do Planalto divulgou a carta do ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira, 22, na qual pede afastamento do cargo. No documento, de 28 linhas, Walfrido escreve que nunca participou de qualquer reunião sobre o assunto que levou o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, a denunciá-lo ao Supremo Tribunal Federal (STF). O líder do governo na Câmara, José Múcio (PTB-PE), é cotado para ocupar a vaga.   Veja Também:    Entenda o mensalão mineiro  Denúncia contra Azeredo contamina congresso do PSDB CPMF fica prejudicada com saída de Mares Guia, diz especialista Veja quem são os 15 denunciados pelo mensalão mineiro  Confira a íntegra da denúncia   Denúncia é chance para comprovar inocência, diz Azeredo  Procuradoria pede julgamento separado de sócio de Valério FHC não defende Azeredo e diz que 'quem tem culpa, paga'   "A acusação é injusta e improcedente e isso ficará provado no curso do processo", afirmou. "Considerou que neste momento é meu dever empenhar esforços para me defender. Não quero, entretanto, que um assunto alheio ao seu governo cause qualquer embaraço à sua gestão e à importante agenda que vossa excelência tem para o País."   Mais cedo, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, havia protocolado no Supremo Tribunal Federal (STF), denúncia contra Mares Guia por envolvimento no mensalão mineiro, suposto uso de caixa 2 na campanha de reeleição do então governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998. Azeredo e mais 13 também fazem parte da denúncia.   Veja a íntegra da carta de Walfrido dos Mares Guia:   Excelentíssimo Senhor Presidente da República,     Senhor Presidente, quando aceitei seu honroso convite para assumir o Ministério do Turismo e, posteriormente, a Secretaria de Relações Institucionais, o fiz com a tranqüilidade de que tenho uma vida idônea, transparente e marcada por êxitos que obtive à custa de muito trabalho. Ao longo destes quase cinco anos de colaboração com seu governo, procurei contribuir com todos os meus esforços para uma obra econômica e social que já faz parte da História do País. Infelizmente, esse mesmo compromisso me obriga, hoje, a pedir meu afastamento do cargo de Ministro-Chefe da Secretaria de Relações Institucionais.   Uma única vez, no dia 6 de março de 2006, prestei depoimento à Polícia Federal sobre questões relativas à campanha eleitoral de 1998 em Minas Gerais. Naquela oportunidade, nada me foi perguntado sobre um possível desvio de recursos de patrocínio de eventos para a campanha de reeleição do então governador. Essas questões, agora, baseiam uma surpreendente acusação contra mim. Recebi com profunda indignação a informação de que o Procurador-Geral da República acusou-me perante o Supremo Tribunal Federal por um crime que não cometi e sobre o qual jamais fui ouvido. Nem a Polícia Federal, nem o próprio Procurador deram-me o direito de prestar os esclarecimentos ao longo dos quase dez anos nos quais investigou-se esse assunto.   Como lhe disse anteriormente, se tivesse um milímetro de dúvida sobre minha biografia, jamais teria aceitado este cargo. Essa convicção me permite afirmar que nunca participei de qualquer reunião sobre o assunto que ora move o Procurador-Geral da República em sua acusação ou dele tive ciência ao longo da campanha eleitoral de 1998, período no qual dediquei-me intensamente à minha eleição para a Câmara dos Deputados. A acusação é injusta e improcedente. Isso ficará provado no curso do processo. Considero que neste momento é meu dever empenhar todos os meus esforços para me defender. Não quero, entretanto, que um assunto alheio ao seu governo cause qualquer embaraço à sua gestão e à importante agenda que Vossa Excelência tem para o País.   Senhor Presidente, agradeço imensamente seu apoio e sua confiança. Nos conhecemos ao final de 2002, quando fui chamado para compor sua equipe. Desde então, sua postura leal, firme e cordial estreitou os laços entre nós e também entre nossas famílias. Ao interromper esta colaboração, o faço com enorme gratidão pela oportunidade de servir ao País e com profundo afeto pela amizade que construímos. Saiba que onde estiver continuarei trabalhando por seu governo.   Respeitosamente,    WALFRIDO DOS MARES GUIA   Ministro de Estado Chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República   Denúncia   O relator do processo no STF, ministro Joaquim Barbosa, confirmou que já está com a denúncia, mas não soube precisar quais crimes cada um teria cometido. Ele apenas adiantou que de acordo com o Ministério Publico houve a prática de peculato e lavagem de dinheiro. A denúncia tem aproximadamente 80 páginas e cerca de 15 denunciados, incluindo o empresário Marcos Valério.   Mares Guia seria apontado na denúncia como operador do esquema irregular da campanha à reeleição do então governador mineiro Eduardo Azeredo. O esquema, intermediado pela SMP&B, a agência do publicitário Marcos Valério, teria sido a gênese do mensalão repetido posteriormente pelo PT.   Durante a reunião do Conselho Político do governo que se estendeu até depois das 13 horas, o assunto não teria sido abordado, segundo o líder do governo na Câmara, José Mucio Monteiro (PE), companheiro de Mares Guia no PTB. "Posso dizer que todos nós estamos torcendo pelo melhor para o país. Todos os partidos sabem da extraordinária contribuição que Walfrido dá ao país", disse José Múcio, cujo nome é apontado como sucessor natural de Mares Guia.   Mares Guia é filiado ao PTB, partido que decidiu nesta quarta-feira romper com o bloco governista. O anúncio foi feito pelo senador Romeu Tuma (PTB-SP) após reunião realizada no gabinete da liderança do partido. Tuma disse que, apesar da decisão, os petebistas não estão passando para a oposição e sim adotando uma postura "mais independente", sem fechar questão nem contra nem a favor da aprovação da emenda que prorroga até 2011 a vigência da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).   (Com Reuters)  

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