Mares Guia alega que pagou dívida de Azeredo ''''por amizade''''

Ministro entrega defesa de 13 páginas e nega ligação com caixa 2 em Minas

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

03 de outubro de 2007 | 00h00

Acuado pela Polícia Federal, que lhe atribui envolvimento com o mensalão mineiro e pede autorização judicial para devassa fiscal e bancária em seus negócios, o ministro Walfrido Mares Guia (Relações Institucionais da Presidência) entregou manifestação de 13 páginas à Procuradoria-Geral da República e nela sustenta que não teve participação na arrecadação da campanha eleitoral do senador Eduardo Azeredo (PSDB) ao governo de Minas, em 1998. Na manifestação, subscrita por seus advogados - os criminalistas Arnaldo Malheiros Filho e José Eduardo de Alckmin -, o ministro admite que pagou dívida do tucano. "Paguei movido por sentimento de amizade, oferecendo uma ajuda perfeitamente compatível com meu cabedal."A manifestação é uma defesa prévia espontânea. Com ela, o ministro de Lula pretende esvaziar o relatório da PF, peça de 172 páginas que descreve como operou o mensalão de Minas, e evitar que o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, o denuncie criminalmente perante o Supremo Tribunal Federal. "Pessoas interessadas na manipulação política do caso querem colocar a faca no pescoço do procurador para que apresente logo a denúncia", suspeita Malheiros Filho. "A Mares Guia não se imputa fato típico e o que se imputa está devidamente apurado", assinala a defesa. "Grande temeridade e injustiça seria, desde logo, envolvê-lo numa denúncia nessas circunstâncias."A Polícia Federal anexou ao inquérito manuscritos de Mares Guia sobre "previsões de repasses" a aliados de Azeredo. Segundo a PF, "o ministro participou ativamente" das negociações envolvendo a contratação do publicitário Duda Mendonça, cujo pagamento, de R$ 4,5 milhões, foi suportado com verbas disponibilizadas por Marcos Valério, apontado como carro-chefe do mensalão mineiro e do mensalão do PT.A defesa classifica de "subjetivas e vazias as imputações num inquérito ainda inconcluso". O ministro anexou carta da Price Waterhouse Coopers atestando que o dinheiro que usou para quitar empréstimo de Azeredo no valor de R$ 500 mil saiu de sua holding, a Samos. Afirma que foi Azeredo quem indicou número de conta no Banco Rural para o depósito. Alega que somente depois da operação é que soube que a conta era de Valério.Diz a defesa: "O ministro ficou distanciado do comando central da campanha e de sua administração. Sua participação foi política, participou do esforço de pedir votos e propalar o nome do candidato. Para isso trabalhou junto aos prefeitos que lhe apoiaram, junto a lideranças diversas, no empenho de catequese eleitoral.""Engenheiro, adestrado na prática dos cálculos, empresário e, assim, com tirocínio na avaliação de riscos, da relação custo/beneficio e da viabilidade econômico-financeiro de projetos, e sazonado no comando de campanhas eleitorais bem-sucedidas, o ministro tornou-se avis rara no meio político, onde a retórica costuma suplantar de longe a aritmética", diz a defesa. "Suas análises técnicas desapaixonadas eram buscadas por muitos, aliados e nem tão aliados, amigos e não tão amigos."Sobre os manuscritos admitiu serem de sua autoria, mas observou que se tratava de mera "estimativa de custo feita muito antes da campanha". Os advogados salientam: "Em conversa que travou com Azeredo e assessores, por volta de maio de 1998, participou de discussão sobre custos da próxima campanha ao governo, tendo rascunhado suas projeções, números representativos de quanto seria necessário para custear o empreendimento. Projeções que não envolviam sua própria participação, nem no levantamento dos fundos nem em sua destinação."Sobre Duda, alegou que o publicitário fez proposta em seu nome e que a ele coube repassá-la ao comitê. "Não tive participação na negociação." Os advogados do ministro recriminam Nilson Monteiro, que denunciou à PF que Mares Guia teria recebido R$ 24, 5 milhões do caixa 2. "Nilson é um larápio."TRECHOS DA DEFESA"Paguei movido por sentimento de amizade, oferecendo uma ajuda perfeitamente compatível com meu cabedal" "A Mares Guia não se imputa fato típico e o que se imputa está devidamente apurado. Grande temeridade e injustiça seria, desde logo, envolvê-lo numa denúncia nessas circunstâncias" "O ministro ficou distanciado do comando central da campanha e de sua administração. Sua participação foi política, participou do esforço de pedir votos"

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