Marchinhas e políticos sempre combinam

Sátiras viram ponto forte de concurso

O Estadao de S.Paulo

13 de outubro de 2007 | 00h00

Os bois do senador Renan Calheiros foram lembrados. O "relaxa e goza" da ministra Marta Suplicy também. Até o mensalão voltou. A sátira política está sendo o forte do 3º Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso, na Lapa, no Rio.Nas duas edições anteriores apareceram poucas músicas com sátiras políticas. Este ano, porém, elas representam 30% das quase 500 já registradas - as inscrições terminam na quinta-feira. Culpa do ano pródigo em escândalos. "O momento político está carnavalesco, sem querer ofender o carnaval", analisa Perfeito Fortuna, agitador famoso no Rio e criador do concurso da Fundição.A tese de Fortuna é de que as sátiras políticas servem como uma catarse para o brasileiro enfrentar as notícias que chegam de Brasília. "É uma chance de pelo menos rir do que nos acontece", explica. Faz sentido. De todo o País, chegaram marchinhas com sátiras aos bois do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), à máfia dos sanguessugas, ao presidente Lula e ao sistema de saúde.A célebre frase "relaxa e goza", da ministra do Turismo, Marta Suplicy, no auge do caos aéreo, rendeu três marchinhas. O santista Pablo Ribeiro até gosta dela, mas não resistiu a escrever Relax da Marta - "A ministra é quem mandou/relaxa e goza que a zorra se formou". "A marchinha é uma gozação em cima da declaração dela. Acompanho a Marta desde o tempo da TV Mulher, mas a política muda muito o perfil das pessoas", lamenta o aposentado Pablo, fã de Zé Ketti e Lamartine Babo.Até o baiano Moraes Moreira entrou na onda. A sátira do ex-Novos Baianos é ampla. O título da marchinha é Este País tá Dodói, uma queixa contra o sistema de saúde no Brasil, a começar pelos seguros.Um mês depois de fazer 60 anos, em julho, Moreira recebeu a conta de seu plano. "Estava 90% mais caro. Um absurdo. Parece que acham que eu estou morrendo. Só melhorei depois que fiz a música", conta ele. A marchinha é assim: "Eu já fiz tudo que pude/sem ter com quem reclamar/ apelo pro Bom Jesus/o meu destino é o SUS".A ira de Moraes Moreira não é só contra a empresa de seu seguro saúde, mas também contra o governo federal. "A gente não tem para quem reclamar. O governo lava as mãos. Aí só apelando para o bom humor e fazendo música."É a mesma filosofia do pernambucano Fernando Azevedo, de 67 anos, pediatra de profissão e compositor por puro prazer. Autor de Frevo do Galo, sucesso na voz da cantora Amelinha, Azevedo se inspirou no escândalo que envolveu Renan Calheiros para escrever Pra Boi Acordar - "Que coisa enrolada esse meu Brasil/uma novilha bem gostosa apareceu/ e vai comer bem direitinho/muita ração". "A gente já viu muito escândalo no Brasil. Mas esse do Renan Calheiros está se arrastando demais", reclama Azevedo.José Roberto Kelly, autor de marchinhas famosas, como Cabeleira do Zezé, elogia essa nova safra. "Eu sempre fiz mais um retrato do cotidiano. Mas gosto destas músicas com sátira política. É um jeito de a gente extravasar nossa revolta com o que acontece." Kelly é presidente do júri que escolherá as dez melhores marchinhas no dia 27. O vencedor será definido em janeiro, em votação popular durante o programa Fantástico, da Rede Globo.

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