Marceneiro foi "laranja" de empresário maranhense

Um marceneiro pobre que vive no bairro Alemanha, em São Luís (MA), foi usado como "laranja" pelo empresário Aldenor Cunha Rebouças, investigado pela Polícia Federal, para registrar empresas de fachada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. De acordo com documentos apreendidos pela PF no escritório de consultoria de Rebouças, na capital maranhense, a Newclare Finance e a Carney Holdings - cada uma com capital social de US$ 50 mil - pertenceriam a Carlos Antônio Correia Costa, residente na travessa Carlos Macieira, 45, em São Luís. A Polícia Federal, que investiga supostas ligações entre Rebouças e o gerente de planejamento do governo do Maranhão, Jorge Murad, marido da governadora do Estado, Roseana Sarney, pediu, à Justiça Federal, a quebra de sigilo bancário do escritório do empresário. Numa busca e apreensão no local, a PF encontrou documentos da Nova Holanda Agropecuária e Agrima, duas empresas que os investigadores querem saber se pertencem a Murad.No endereço do marceneiro, o Estado localizou uma casa simples de madeira e alvenaria, onde vive Carlos Antônio com os pais, Antônio Rodrigues Costa e Maria Delmira. Durante anos, Carlos Antônio e Antônio Rodrigues trabalharam para a fábrica de panelas de Rebouças, a Alusa, mas nunca tinham tido a carteira de trabalho assinada. Há alguns anos, segundo Carlos Antônio, o patrão lhes pediu os documentos, inclusive os de Delmira, e foi atendido."A minha carteira ficou assinada só oito dias", lembra Carlos Antônio. Há dois meses, entretanto, a família recebeu uma visita inesperada da PF. Foi quando descobriram que duas empresas de Rebouças, ambas sediadas em São Luís, estavam em nome de Antônio Rodrigues, localizado pelo Estado em uma cama de hospital. "O delegado me disse: na hora que o senhor quiser, entra com uma ordem de despejo, que as fábricas são suas."Ilhas VirgensHoje, Antônio Carlos também ficou sabendo que tinha servido de "laranja" das empresas nas Ilhas Virgens. "É uma grande sujeira o que fizeram", desabafou. "Como pode o dono de todo essa riqueza não ter o que comer?"Investigado pela PF, Rebouças é consultor econômico, além de empresário. Por suas mãos passaram vários projetos de viabilidade econômica beneficiados com verbas da Sudam, como o da fábrica de autopeças Usimar. O megaempreendimento paranaense no Distrito Industrial de São Luís chegou a receber R$ 44 milhões da União, mas nunca saiu do papel. Não fosse a descoberta de se tratar de uma obra de fachada, o projeto poderia receber R$ 690 milhões.Os recursos foram autorizados pelo conselho deliberativo da Sudam, numa reunião presidida pela própria governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Ela e o marido, o gerente de Planejamento Jorge Murad, trabalharam junto ao governo federal para acelerar a aprovação do projeto fantasma. Daí surgiram as suspeitas de conexão entre Rebouças e Murad.Em nota oficial divulgada no domingo, Murad negou ter qualquer relação "de natureza profissional ou pessoal" com o escritório de Rebouças. Procurado pelo Estado, o consultor não quis falar. Disse que seu celular estava com a bateria fraca e, depois, não atendeu mais as chamadas. ProvasO Ministério Público ainda não tem provas que liguem o marido da governadora às irregularidades, pois um véu encobre os negócios do casal Murad e Roseana. "Se investigar, vão encontrar alguma coisa. A riqueza deles não tem explicação", diz a deputada estadual Teresa Murad (PSB), que é casada com o irmão de Jorge, o ex-deputado Ricardo Murad. Os dois irmãos estão rompidos desde 1994, quando Ricardo foi preterido em relação a Roseana na escolha do candidato a governador do PFL.Apesar de os negócios do homem forte do governo estadual serem assunto corrente em São Luís, como a construção de prédios e a participação em um grande shopping da cidade, poucas propriedades estão registradas em nome de Jorge Murad, como a Lunus Serviços e Participações, empresa que sofreu uma batida da PF na sexta-feira.A governadora tem 82% das ações da empresa, o equivalente a R$ 2,4 milhões, mas como ela e o marido ocupam cargos públicos, devem formalmente estar afastados do gerenciamento, entregue a um sócio minoritário do casal, Severino Cabral. Severino também era sócio de Murad em uma empresa de intermediação financeira, a Credite Factory, em que o gerente de Planejamento do Estado aparecia como gerente até julho do ano passado. Como isso é proibido pela legislação, Murad resolveu fechar a empresa.

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