Elton Bonfim/Agência Câmara
Elton Bonfim/Agência Câmara

Manuela D'Ávila chama Cunha de 'fundamentalista'

Deputada gaúcha lamenta vitória de peemedebista na presidência da Câmara e diz que proposta de reforma política do parlamentar vai na contramão dos anseios da população

Gabriela Lara, correspondente, O Estado de S. Paulo

09 Fevereiro 2015 | 18h38

Porto Alegre -  A deputada estadual Manuela  D' Ávila (PC do B- RS) afirmou nesta segunda-feira, 9, que a Câmara dos Deputados é presidida por um 'fundamentalista', ao se referir a Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Foi muito forte para mim a eleição do Eduardo Cunha. Eu disse: 'Poxa, eu não vou estar lá e nós vamos ter um fundamentalista como presidente da Câmara'", contou em entrevista exclusiva ao Broadcast Político, serviço em tempo real da Agência Estado.

Para a deputada, Cunha começou mal no cargo ao autorizar, semana passada, a criação de uma comissão especial para a apreciação da Proposta de Emenda à Constituição da Reforma Política, a PEC 352/13. O projeto é criticado - inclusive pelo PT - por manter a possibilidade de financiamento de empresas privadas às campanhas eleitorais.

"A gente percebe a distância que está de transformações mais profundas quando vê o Congresso não só eleger o Eduardo Cunha, mas permitir que seja constitucionalizada, por exemplo, a doação privada de campanha. É uma prova de como estamos distantes das vontades da população", afirmou. "O povo tem que se mobilizar para ter a reforma política, porque o Congresso vai se mobilizar para fazer a sua. E a sua, na minha avaliação, se for essa que o presidente Eduardo Cunha botou para votação, é na contramão do que o povo quer, é para aprofundar o sistema político que a gente tem hoje."

Manuela d'Ávila chegou a Brasília em 2007, com 25 anos e o título de deputada federal mais votada do Rio Grande do Sul. Foi chamada de musa e ganhou destaque como uma das lideranças do PCdoB no Congresso. Depois de dois mandatos seguidos, resolveu voltar para casa, em Porto Alegre. Eleita em outubro, assumiu em 30 de janeiro o cargo de deputada estadual na Assembleia Legislativa gaúcha, sem perder, no entanto, o olhar atento para o cenário nacional. .

Manuela atribui a decisão de interromper a carreira em Brasília a uma opção pessoal - queria estar mais perto do marido e do restante da família. Além disso, pesou o desejo de se reaproximar dos movimentos sociais onde começou a militar, em Porto Alegre. Embora encare com naturalidade o fim da trajetória no Congresso, ela não esconde que ainda tem sentimentos "conflitantes", porque não consegue manter o pensamento longe de questões nacionais, como a recente eleição para o comando da Câmara.

Segundo ela, o financiamento eleitoral pelas grandes companhias deveria ser o principal ponto a ser atacado numa reforma política que pretende ser capaz de combater a corrupção no Brasil. Manuela defende campanhas mais simples, feitas com base no fundo partidário. Nesse sistema, as doações de empresas não seriam permitidas, e as de pessoas físicas, se aceitas, seriam limitadas. "O dinheiro cria uma série de deformidades", resume.

Governo federal. Apesar de manter o olhar atento ao cenário nacional, Manuela evita comentar o começo conturbado do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, que fez baixar a taxa da aprovação da petista. De acordo com pesquisa Datafolha divulgada neste fim de semana, a avaliação ótima/boa do governo federal caiu de 42% em dezembro para 23% agora.

Perguntada sobre as recentes medidas de ajuste fiscal anunciadas pelo governo - algumas consideradas impopulares e contrárias ao discurso pregado pela petista durante a campanha eleitoral -, a deputada prefere dizer que seu partido confia no projeto político de Dilma. "A gente acredita no que a presidente representa e no conjunto das ações do governo dela", avisou, sem deixar, porém, de fazer ressalvas. A gaúcha lembrou que o PCdoB integra a base governista, mas que a "autonomia partidária" existe para que a legenda possa defender suas bandeiras, independente da posição do governo, e destacou, por exemplo, que o PCdoB é "radicalmente contra" a retirada de qualquer direito dos trabalhadores.

Em outro momento, ao mencionar que o Brasil elegeu o "Congresso mais conservador dos últimos tempos", Manuela reconheceu que as mudanças vividas pelo País impõem desafios à atual administração. "Quando a gente assumiu o governo (federal), criamos um projeto de desenvolvimento para o Brasil. Ele tem etapas. Acho que a gente tem que se reinventar nesse sentido", explicou. "Nosso projeto precisa entrar numa nova fase, que é uma fase de reformas mais profundas. Não é uma reinvenção da esquerda do ponto de vista ideológico, é do projeto que a gente conduz à frente do Brasil."

Futuro político. O balanço que ela faz dos oito anos em que esteve em Brasília é positivo. Manuela foi líder da bancada do PCdoB, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias e exerceu o papel de relatora da Lei dos Estágios e do Estatuto da Juventude. Depois de ser eleita duas vezes como a deputada federal mais votada do Rio Grande do Sul (em 2006 e 2010), a decisão de não concorrer novamente à Câmara foi influenciada pela sensação de um certo "esgotamento" no cargo. "Quem é deputado federal e tenta transformar a política tem que todos os dias ter 100% da sua energia. Quando percebi que meu ciclo em Brasília tinha acabado, isso significava que a minha energia já não era mais 100%", contou. "Tinha muita convicção de que esgotei um ciclo." Mantendo a tradição, ela foi campeã de votos também no pleito do ano passado, para a Assembleia Legislativa gaúcha.

Aos 33 anos, Manuela não descarta um retorno a Brasília, mas avisa que atualmente não pensa nisso. Após a posse da nova legislatura, no último dia 30, foi a primeira a protocolar projetos de lei na Assembleia - apresentou 14 de uma só vez.

Na oposição ao governador José Ivo Sartori (PMDB), entende que, para combater a crise financeira estadual, o Executivo está adotando "um remédio que não é o mais adequado": o de corte em investimentos sociais - no início do ano Sartori assinou um decreto que prevê a possibilidade de suspender o pagamento a fornecedores e prestadores de serviços, o que gera reflexos em áreas como saúde, educação e segurança. "Acho que teremos anos difíceis no Rio Grande do Sul. A população já vive um Estado sucateado", criticou.

Desde o ano passado seu nome desponta como candidata natural na eleição municipal de 2016. Ela concorreu à prefeitura de Porto Alegre em 2008 e 2012, mas não se elegeu - em nenhuma das ocasiões teve o apoio do PT (aliado histórico do PCdoB), que lançou candidato próprio. Agora, ganha força o grupo petista que defende uma aliança em torno do nome de Manuela para 2016. Ela despista. "Minha decisão de voltar (ao Rio Grande do Sul) não tem absolutamente nada a ver com qualquer possibilidade de concorrer para prefeita", avisou. "Hoje, sou deputada estadual e estou muito feliz."

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