Manifesto de intelectuais não assusta Genro

O ministro Tarso Genro, que coordena as atividades do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considera "sadio" o fato de um grupo de intelectuais, historicamente ligados ao PT, ter distribuído um manifesto com duras críticas à atuação do governo. Em entrevista ao programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, ele reconheceu que, na verdade, uma grande parte da intelectualidade tinha a expectativa de que o governo seria de esquerda, "porque o PT é um partido de esquerda". E completou: "No Brasil, ele não é. O governo é de centro-esquerda, mas tem como grupo hegemônico um partido de esquerda. Isso é muito diferente; um governo de centro-esquerda tem que dar conta a um conjunto de forças, a uma coalizão que lhe dê sustentabilidade. Então, ele tem de olhar para o centro e tem que olhar para a esquerda, para saber onde está". Genro repetiu o discurso do Palácio do Planalto sobre a taxa de juros.Sem infidelidadeO ex-prefeito de Porto Alegre explicou que se o governo Lula romper a coalizão, estará sendo infiel com a delegação recebida no segundo turno, "porque o PT tem 33% dos votos do País". "E um governo, para tomar medidas de mudança, tem de ter uma edificação, uma estrutura social brasileira para que isso seja sustentável, na política e no conjunto da sociedade."Os radicaisGenro reconheceu ter sido um radical, lembrando que também o presidente nacional do PT, José Genoino, foi assim considerado. "Os radicais não mudaram. O PT mudou, porque todo partido que sai exclusivamente de um movimento de lutas e se torna partido de governo, ele sempre muda para ir à frente, senão ele não governa. Mas não se governa sem governo.Oposição às reformasO entrevistado também reconheceu que uma parte do setor público, tradicionalmente ligado à CUT, está contra a reforma previdenciária proposta pelo governo. E explicou que há dois motivos para isso. "Tem uma pequena parte (desses opositores) porque vai ser atingida em seus privilégios. A outra parte, porque pensa que vai ser atingida em seus direitos. O que é completamente diferente. Então, esse movimento dos servidores públicos, nós temos que encarar com respeito. Há uma ansiedade do servidor público em relação às reformas. Agora, se você analisar o conjunto de reformas e quem decidiu atacá-las, você vai ver que é uma posição muito pequena. Na reforma tributária, há um imenso diálogo para mudar algumas coisas, mas aprová-las. A reforma (previdenciária), no que se refere ao Regime Geral, só traz vantagens para 80% dos milhões e milhões de trabalhadores, que são pensionistas e aposentados. O servidor público? Bate numa pequena parte. Agora, essa pequena parte é óbvio que ela bate organizada (no governo), solidária. Então, nós temos de dialogar e ganhá-los politicamente para a nossa proposta."Taxa de jurosSobre a elevada taxa de juros, aumentada por duas vezes no atual governo, Genro repetiu o discurso que vem sendo feito pelo próprio presidente e sua equipe econômica. "Nós estamos tomando todas as medidas para que a taxa possa cair e possamos retomar o crescimento e a taxa não volte a subir depois. Isso já ocorreu em rebaixamentos anteriores." O ex-prefeito de Porto Alegre não se arriscou a dar um palpite sobre qual seria a decisão que o Copom adotará em sua reunião de amanhã e quarta-feira, que definirá sobre a manutenção ou não da atual taxa Selic. Para ele, o Copom tem de lidar com dados objetivos e trabalhar tecnicamente. Mas reconheceu: "Obviamente, toda medida macroeconômica também tem sensibilidade política. Agora, eu emitir uma opinião sobre isso seria uma atitude irresponsável da minha parte, e criaria uma expectativa que eu não tenho condições de avançar."

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