Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Manifestantes voltam a protestar contra Bolsonaro pelo Brasil

Atos ocorreram em ao menos oito capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre Brasília e Campo Grande

O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2018 | 19h33

Manifestantes se reuniram na tarde deste sábado, 20, para protestar contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro. Assim como ocorreu durante os atos no primeiro turno, os participantes carregavam faixas e entoavam o coro "Ele, não", campanha que ganhou força nas redes sociais e motivou protestos em diversas cidades do Brasil e até em outros países. As principais concentrações ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Brasília. Neste domingo, 21, estão programadas manifestações em todo país a favor de Bolsonaro e contra o comunismo e o retorno do PT à Presidência. 

São Paulo

Em São Paulo, a manifestação lotou o vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. A multidão chegou a extrapolar a área da praça e ocupou totalmente os dois sentidos da via, na região central da capital. Ao som de tambores, centenas de pessoas gritavam “Ele não!”, “Ele Nunca!” e “Ele Jamais”, em referência ao candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro.

Faixas de diversas cores e tamanhos se posicionavam contra as declarações do presidenciável consideradas ofensivas às mulheres, aos homossexuais e negros. Também podiam ser vistas bandeiras de centrais sindicais e partidos políticos em meio à multidão.

Rio de Janeiro

Manifestantes se reuniram na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro. O protesto foi organizado pelo grupo Mulheres Contra Bolsonaro e ocupou a praça em frente à Câmara Municipal.

O movimento exibia placas e cartazes de pessoas que representam a luta pelos direitos humanos. Houve homenagens à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março, e ao ativista cultural negro e fundador do afoxé Romualdo Rosário da Costa, 63, o Moa do Katendê, morto em um bar de Salvador após defender seu voto em Fernando Haddad (PT) no primeiro turno.

Brasília

Na capital federal, o protesto teve faixas e gritos contra o fascismo, a ditadura e as fake news de WhatsApp. Além disso, diversos militantes usaram cartazes em favor da candidatura de Fernando Haddad (PT) e sua vice, Manuela D'Ávila (PCdoB). 

O protesto começou por volta das 16h na Rodoviária do Plano Piloto, região central da capital federal. De lá, os manifestarem marcharam, pelo Eixo Monumental, até a Fundação Nacional das Artes (Funarte). A caminhada interditou três faixas de rolamento, sob escolta da Polícia Militar do Distrito Federal. Segundo os organizadores, o movimentou reuniu aproximadamente 10 mil pessoas, enquanto que a PM-DF fez uma estimativa de 6 mil pessoas presentes.

Durante o ato, os manifestantes entoaram o já conhecido grito de "Ele, não" contra Bolsonaro, mas também pediram "ditadura nunca mais" e "livros, sim, armas, não", em referências às propostas de flexibilização do Estatuto do Desarmamento, do presidenciável do PSL.

Os militantes também usaram faixas e cantos para questionar a ausência de Bolsonaro nos debates televisivos. Dirigentes de campanha do presidenciável declararam nesta semana que o candidato não irá a nenhum dos embates previstos pela emissora.

Em razão disso, em diversos dos momentos da manifestação, o grupo cantou: "O Bolsonaro, vem debater, na UTI, no hospital ou na TV".  Com camisetas e faixas vermelhas, os participantes também se manifestaram a favor de Haddad. "Eu 'tô' com ele, eu 'tô' com ela, segundo turno é Haddad e Manuela", repetiram em coro. 

A manifestação ainda teve a participação de Arlete Sampaio, deputada distrital eleita pelo PT-DF.  Ela subiu ao carro de som para chamar de "aberração" a proposta de Bolsonaro de oferecer ensino fundamental à distância no País. "Estamos virando o jogo. Nós não podemos deixar o Palácio do Planalto ser ocupado pelo fascismo", afirmou. 

Porto Alegre

Em Porto Alegre, o ato ocorreu no Parque da Redenção, região central da cidade, e teve a presença da candidata a vice na chapa de Fernando Haddad (PT), Manuela D'Ávila (PCdoB).

A manifestação seguiu os moldes do ato "ele não" que ocorreu no dia 29 de setembro. A partir das 15h, pessoas ligadas a movimentos sociais e a partidos políticos falaram em cima de um carro de som. "Ele não" e "no domingo Bolsonaro vai cair" foram as palavras mais entoadas pelos presentes.

Manuela chegou às 17h e foi recebida com aplausos e aos gritos de "Manu no (Palácio do) Jaburu". Em seu discurso, a deputada estadual gaúcha falou sobre as acusações de que empresas pagavam para disparar mensagens no WhatsApp contra o PT. "Nós vimos que a construção do ódio e da intolerância na sociedade brasileira, a partir das notícias falsas, tem origem no dinheiro sujo daqueles que querem que Bolsonaro seja eleito presidente", disse.

A candidata pediu para que os militantes "levem ao povo o escândalo" das mensagens e criticou Bolsonaro. "Serei resistência, levando as denuncias gravíssimas sobre esse deputado incompetente que mamou 26 anos no Congresso Nacional e nunca aprovou um único projeto", afirmou Manuela.

Depois dos discursos, a organização promoveu uma caminhada por ruas da região central da capital gaúcha.

Belo Horizonte

Com a maior parte formada por eleitores do PT e presença de blocos de carnaval, milhares de pessoas participaram na capital mineira da manifestação "Todos pelo Brasil", organizada por sindicatos e representantes de partidos de esquerda e de movimentos sociais. A Polícia Militar de Minas Gerais não divulgou projeção de participantes na manifestação, que teve concentração na Praça Sete e seguiu em passeata para a Praça da Estação, ambas na Região Central de Belo Horizonte.

A maior parte das bandeiras e faixas no ato era do candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, e de movimentos sociais ligados à comunidade negra e gay. 

Com o aumento do apoio de evangélicos à candidatura do rival de Haddad no segundo turno, Jair Bolsonaro (PSL), cartazes com frases que remetiam a Jesus Cristo foram colocados no local de concentração da manifestação. Alguns diziam " Jesus não apoia racismo" e Jesus não apoia tortura".

O ato em Belo Horizonte ocorre sem incidentes de gravidade. Em apenas um momento no trajeto entre a Praça Sete e a Praça da Estação, no cruzamento da Avenida Amazonas com a Rua Espírito Santo, motoristas que esperavam a manifestação passar para prosseguir começaram a gritar o nome de Bolsonaro. Neste momento dois guardas da Polícia Militar se colocaram entre os motoristas e não chegou a ocorrer confronto.

Segundo Tiago Colares Porfírio, de 36 anos, que trabalha em um clube de Belo Horizonte, sua presença na manifestação tinha como objetivo "mostrar que estava do lado de um projeto democrático". "É pra deixar claro que nós nos importamos com a preservação dos direitos das mulheres, das cotas raciais e a demarcação das terras indígenas. Bolsonaro ameaça tudo isso", disse.

Ao longo da passeata, os manifestantes gritavam o nome de Haddad e cobravam a presença de Bolsonaro nos debates da televisão. Outra participante do ato, a professora de ensino fundamental das redes municipal de Belo Horizonte e do Estado de Minas Gerais, Cynthia Conceição Rodrigues Alves, de 40 anos, disse que, apesar da vantagem de Bolsonaro nas pesquisas, milhares de pessoas não concordam com isso. "Bolsonaro foge dos debates. Bolsonaro é o candidato do fake news", afirmou.

Curitiba

Em Curitiba, um grupo de manifestantes, composto principalmente por mulheres que levavam faixas e cartazes, gritou palavras de ordem e cantou pedindo votos para Haddad.

Nem os organizadores, nem a Polícia Militar deram estimativa de público para o ato, que começou por volta das 14h, com uma concentração na Praça Santos Andrade, em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O grupo se organizou principalmente por eventos criados nas redes sociais, em que milhares confirmaram presença.

Depois, os manifestantes seguiram em caminhada pelo calçadão da Rua XV de Novembro até a Boca Maldita, conhecido local de atos políticos da capital paranaense. Ao menos duas quadras do calçadão ficaram preenchidas pelos manifestantes. Apesar de o ato ter se encerrado oficialmente por volta das 17h, um grupo continuou no ponto final da caminhada.

As estudantes Daniela dos Passos Cavalari, Maria Eduarda Cavalheiro Domingos e Amanda Bueno de Oliveira participaram do ato com bandeiras em defesa dos LGBTs. "A gente tem que lutar pela democracia que a gente estabeleceu há tão pouco tempo e não pode eleger um candidato que odeia mais da metade da população brasileira, que são mulheres e negras. Nem eleger um lgbtfóbico, porque essa comunidade ganhou muito espaço e a gente não pode retroceder", diz Daniela.

Salvador

Em Salvador, o ato organizado por movimentos de esquerda contou com a presença do senador eleito pela Bahia e coordenador político da campanha de Haddad, Jaques Wagner.  Segundo ele, o capitão reformado do Exército "é um criminoso" e um "clássico valentão, que é retado quando está em turma, mas quando está sozinho se esconde debaixo da cama".

Para Wagner, a campanha de Bolsonaro, denunciada por ter recebido apoio de empresários no envio de notícias falsas em massa contra o PT, "está contaminada por um crime eleitoral grave, que é o financiamento empresarial de campanha e a omissão desse gasto".

Wagner, que andou no meio dos manifestantes pelo centro da capital baiana, ao lado do ex-presidente da Petrobras e coordenador-geral da campanha de Haddad José Sérgio Gabrieli, disse ainda que a Justiça Eleitoral e a sociedade brasileira "não se prepararam para lidar com os fakes", em referência à proliferação de notícias falsas.

Além de Wagner e Gabrielli, secretários do governo Rui Costa (PT), reeleito no primeiro turno, e lideranças partidários de PT, PCdoB, PSOL, PSTU e PSB estiveram na manifestação na capital baiana. A concentração, que aconteceu na praça do Campo Grande, reuniu 3 mil pessoas, de acordo com a PM, e 15 mil, segundo os organizadores.

O ex-ministro defendeu que "o Brasil não pode ser manipulado a partir dos Estados Unidos, da Macedônia, seja lá para onde for, através de milhões e milhões de mensagens que espalham mentiras para tentar ganhar uma eleição".

"Se for isso, a democracia brasileira está fortemente ameaçada", alertou o ex-governador, que chamou Bolsonaro de "pastel de vento sem conteúdo". "Tem uma quadrilha de empresários com ele, com os condutores da campanha dele, que estão trabalhando em cima da ingenuidade do povo, às vezes na confusão. Mas a gente está conseguindo cada vez mais desmentir ele, mostrar que ele é um mentiroso", afirmou o líder petista baiano.

"A única forma que ele tem é a da mentira. Ele é uma mentira, ele não diz nada sobre nada. Se você perguntar o que ele pensa sobre economia, educação, ninguém nunca ouviu nada. Até sobre segurança, o programa dele é uma bobagem", afirmou.

Para o ex-governador, a avaliação da reta final da campanha petista é "positiva". Ele citou pesquisa Vox Populi que mostra o ex-prefeito de São Paulo aproximando-se de Bolsonaro e disse que está sentindo "um processo de despertar".

De acordo com Wagner, "as variações (identificadas em pesquisas) apontam nesse sentido, com Haddad subindo e o outro (Bolsonaro) descendo".

"Cada evidência de que ele é uma farsa, de que ele é uma mentira, de que ele é um Pinóquio, eu acho que mais gente vem para o lado de cá", avaliou o articulador político do candidato do PT ao Planalto.

O ato foi encerrado no Farol da Barra, um dos principais pontos turísticos de Salvador, após seguir pelo Corredor da Vitória, área mais nobre da cidade, e pela orla marítima.

Campo Grande

Em Campo Grande (MS), um ato pela manutenção da democracia e contra a candidatrua de Bolsonaro reuniu manifestantes do movimento #Elenão, além de integrantes do bloco de carnaval "Tá Dando Pinta", do "Slam Campão" - uma competição de poesia - e os grupos Juristas pela Democracia e Marcha Mundial das Mulheres. O protesto aconteceu na Praça Cuiabá.

As amigas e servidoras federais aposentadas, Ana Luiza Matos, 59 anos e Luzia Japira, 60, afirmam acreditar que é preciso se manifestar contra a atual situação política do Brasil. "Acredito que a gente pode fazer a diferença e lutar pela democracia", sustentou Ana Luiza, ao que Luzia completou: "Temos esperança!".  

Iris Matos, 34, lembrou que é difícil no dia a dia mostrar seu posicionamento, principalmente porque as pessoas não entendem e agridem com palavras. "Nós até argumentamos, mas não aceitam, Preferem acreditar nas fake news".

O advogado Valmir dos Santos Silveira, 51, faz parte dos Juristas pela Democracia e também participava do ato. Para ele, "a onda Bolsonaro" foi construída em cima de notícias falsas e que as recentes denúncias de que ele teria se beneficiado de sistema de disparo de mensagens falsas para prejudicar o adversário, Fernando Haddad (PT), revela "que ele não é honesto como dizem".  /Filipe Strazzer, Katna Baran, Leonardo Augusto, Marcio Dolzan, Renan Truffi , Yuri Silva e Lucia Morel, com Agência Brasil

 

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